Por que a Heresia Prospera nas Igrejas?

Muitas vezes somos forçados a fazer a pergunta, “Por que a heresia prospera nas igrejas?” Poderíamos esperar que fosse assim em algumas igrejas, como as do Conselho Nacional de Igrejas que há muito tempo abandonaram a palavra de Deus como a única regra de fé e prática. Também poderíamos esperar que a heresia ganhasse pontos de apoio nas igrejas carismáticas que adicionaram a palavra de Deus as declarações iludidas daqueles que pensam que estão sob a inspiração do Espírito. Mas vemos heresias perigosas e destruidoras da alma que atingem o âmago do cristianismo e subvertem o próprio evangelho de Jesus Cristo prosperando no próprio seio das denominações conservadoras Reformadas e Presbiteriana. Isto consideramos chocante. E nós somos compelidos a lutar com a pergunta: “Como isso é possível?”

Em resposta a essa pergunta estamos postando uma edição recente da Trinity Review que procura responder apenas a esta pergunta. Nossos agradecimentos ao Dr. John Robbins, da Fundação Trinity pela permissão para publicar este artigo em nosso site.

Por que Hereges Ganham Batalhas?

John W. Robbins

O Apóstolo Paulo perdeu algumas de suas batalhas. Quando Paulo pregou o Evangelho de Jesus Cristo nas sinagogas, ele foi perseguido pelo anticristo original, o Judaísmo. Nós não sabemos, mas a tradição diz que Paulo teve uma morte violenta. (O próprio Jesus quase foi assassinado no sábado por religiosos judeus frequentadores da sinagoga que não gostaram do seu sermão; veja Lucas 4.) A maioria dos judeus do primeiro século rejeitaram a Cristo; apenas o remanescente foi salvo. A ira de Deus, exercida através de um descrente e involuntário General Tito, terminou com o culto apóstata do Templo – o alardeado Judaísmo do Segundo Templo da Nova Perspectiva sobre Paulo. Foi somente através da escrita de novas Escrituras, o divinamente inspirado Novo Testamento, e pelo estabelecimento de novas instituições – igrejas para propagar as doutrinas das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento – que o Evangelho sobreviveu ao primeiro século. Como cristão, Paulo não usou a força (como Saulo tinha feito). Ele perdeu batalhas, mas ganhou a guerra.

O reformador Martinho Lutero perdeu algumas de suas batalhas. Quando ele lançou a sua reforma doutrinária em 1517, ele esperava transformar a Igreja-Estado Romana. Em vez disso, o tirano papal o excomungou, queimou seus livros, e assassinou seus seguidores. Não houve uma reforma significativa da Igreja Romana. 500 anos depois, a Igreja-Estado Romana está maior e mais herética do que nunca. Apenas a produção de livros, sermões e panfletos, bem com o estabelecimento de igrejas protestantes e escolas, garantiu a sobrevivência da Reforma. A maioria dos romanistas rejeitaram a Cristo; apenas o remanescente foi salvo. Lutero perdeu batalhas, mas ganhou a guerra.

No século 20, o Presbiteriano J. Gresham Machen perdeu algumas de suas batalhas. Em 1923, ele escreveu um livro demonstrando que a Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos estava pregando duas mensagens diferentes, Cristianismo e Liberalismo. Seus esforços para acabar com as heresias da igreja de Auburn terminaram com Machen e outros sendo excluídos pela Igreja Presbiteriana em 1936. A maioria dos Presbiterianos rejeitaram a Cristo; apenas o remanescente foi salvo. Apenas a publicação de mais literatura, bem como o estabelecimento de novas igrejas e escolas, garantiu que o cristianismo bíblico não desapareceria nos Estados Unidos. Machen perdeu batalhas, mas Cristo venceu a guerra.

No século 21 as instituições que resultaram dos esforços de Machen foram subvertidas por hereges. Se a história serve de indicação, os hereges vão ganhar, e apenas a publicação de mais literatura, além da criação de novas instituições, vão assegurar a sobrevivência do presbiterianismo bíblico na América. A maioria dos presbiterianos norte-americanos vão rejeitar a Cristo, e apenas o remanescente será salvo.

Por que Hereges Ganham?

Existem várias razões porque os hereges ganham batalhas.

Em primeiro lugar, a Escritura nos diz que eles são mais inteligentes e astutos do que os crentes: “Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz.” (Lucas 16.8). Eles têm uma maneira de pensar que os tornam mais politicamente astutos, mais biltres, mais criativos em suas maquinações, e mais dispostos a agir de maneiras pecaminosas, a fim de alcançar seus objetivos. Roubar, mentir, e subornar é válido contanto que eles “avancem o Reino de Deus.”

Em segundo lugar, hereges introduzem idéias falsas furtivamente: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão” (Gálatas 2.4 ) e “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” (Judas 4). Eles parecem ser ovelhas, mas não são; e as idéias que eles ensinam, pelo menos a princípio, parecem ser verdade, mas não são. Através de suas palavras mansas, eles enganam a muitos a pensar que eles são irmãos em Cristo e que as idéias que eles propagam são bíblicas.

Em terceiro lugar, hereges freqüentemente usam a força para perseguir os cristãos. Força funciona; ela silencia a oposição. É por isso que os hereges e tiranos a usam. O sangue dos mártires não é a semente da igreja; somente o Evangelho é.

Em quarto lugar, e mais importante, aqueles que crêem na verdade tendem a ser lentos em reconhecer o erro e ainda mais lentos para tomar as medidas necessárias para defender a verdade. Eles carecem tanto de discernimento quanto de coragem. Esta é a questão fundamental. Os cristãos não conseguem admitir o fato de que os filhos deste mundo são mais astutos do que eles, ou que falsos irmãos agem de forma sutil, veladamente, e coagido. Mas os cristãos podem ajudar na forma como eles compreendem e respondem a tal subversão doutrinária e eclesiástica. A sua falta de discernimento provém da falta de conhecimento das Escrituras, e a sua falta de coragem é resultado de uma falta de crença nas promessas das Escrituras.

Paulo, o Nosso Modelo

Podemos aprender muito com o exemplo do apóstolo Paulo em Antioquia, e sua carta aos Gálatas, porque ele não foi nem lento em reconhecer o erro nem tímido em corrigi-lo. Nossa incapacidade de aprender e imitar Paulo é a principal razão pela qual os hereges ganham batalhas.

Paulo reconheceu o erro doutrinário rapidamente e agiu rapidamente para corrigi-lo. Ele escreveu: “E isto [um problema sobre da pregação do Evangelho] ocorreu “por causa dos falsos irmãos…Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Gálatas 2. 2,5). Paulo não tolerava (“sedia com sujeição” ao) o erro ou aqueles ensinando o erro no Evangelho “nem ainda por uma hora.” Ele foi rápido em reconhecer o erro e rápido em corrigi-lo, de modo que “a verdade do evangelho permanecesse entre vós.” Enquanto sua preocupação era doutrinária, não era acadêmica, porque ele não tolerava aqueles que estavam ensinando o erro nas igrejas. Ele entendeu o erro, e se recusou a tolerar os homens que estavam ensinando ou sendo cúmplices do erro nas igrejas.

Paulo explicou ainda como os cristãos devem responder àqueles que obscurecem o Evangelho: “E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram;”(Gálatas 2:6). Paulo não estava impressionado com a posição de uma pessoa na igreja. Deus não faz acepção de pessoas, e nem fez Paulo. Posição na Igreja, cargo na igreja, credenciais educacionais, não garantem nenhuma imunidade. Na verdade, a regra bíblica é exatamente o contrário: A quem muito é dado, muito será exigido. Quanto maior o cargo, maior a responsabilidade nas igrejas. É por isso que Paulo disse a Timóteo: “Aos que pecarem [presbíteros], repreende-os na presença de todos” (1 Timóteo 5.20).

Até agora, nós aprendemos três coisas sobre como devemos nos opor a aqueles que obscurecem ou pervertem o Evangelho:

1 – Temos de reconhecer o erro doutrinário como um pecado grave.
2 – Não devemos tolerar qualquer erro na doutrina da salvação ou naqueles que a ensinam “nem ainda por uma hora.”
3 – Não devemos nos permitir ser intimidados ou acovardados pelas reputações ou credenciais daqueles ensinando o erro na doutrina da salvação.

Mas Paulo tem muito mais a nos ensinar sobre como corrigir o erro doutrinário nas igrejas. Ele continua: “E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível” (Gálatas 2.11). Esta é a quarta lição de Paulo: Não só devem aqueles que ensinam um falso evangelho ser considerados anátema (veja Gálatas 1), mas também os cristãos devem se opor e corrigir os irmãos que toleram aqueles que pregam um falso evangelho. Em Gálatas 1 Paulo tinha amaldiçoado aqueles que pregam um falso evangelho. No capítulo 2, ele nos instrui sobre como lidar com os irmãos que toleram aqueles que ensinam um falso evangelho, assim deturpando ou comprometendo a doutrina da justificação somente pela fé. Pedro não tinha pregado um falso evangelho, mas suas ações incentivavam aqueles que pregavam. Paulo explicou: “Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, [Pedro] comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação.” Ao descrever as ações de Pedro e Barnabé como “hipocrisia”, Paulo indicou que Pedro e Barnabé acreditavam no Evangelho, mas mesmo assim eles toleravam aqueles que não criam. A tolerância do erro sobre a doutrina da salvação é pecado. É um pecado duplamente grave para os presbíteros, que foram encarregados da responsabilidade de ensinar, de alimentar as ovelhas, e de guardar o rebanho.

Além disso, Paulo se opôs a Pedro “olhando no olho” – direta e abertamente. Paulo era amigo de Pedro e seu colega Apóstolo. Paulo foi até a raiz do problema e confrontou Pedro diretamente. Paulo não tinha uma lealdade pessoal equivocada a Pedro; ele não deixou que uma falsa noção de amizade interferisse em sua responsabilidade de corrigir Pedro e defender o Evangelho. Paulo não chamou Pedro para conversar em particular e lhe sugeriu educadamente que comesse com os gentios. Paulo se opôs a Pedro diretamente face a face. Opor-se ao erro e àqueles que o toleram é algo que muitos cristãos detestam fazer. Eles preferem se lamentar, “não podemos nos dar todos bem?” Aqueles que permitem que uma visão anti-bíblica de amizade ofusque seu julgamento se esqueceram da pergunta de Paulo: “Fiz-me acaso vosso inimigo, dizendo a verdade?” (Gálatas 4.16).

Além disso, no modo como Paulo enfrenta Pedro vemos o importante princípio de que a verdade, as doutrinas bíblicas, devem ser defendidas de forma aberta, direta, e clara. Tentar defender a verdade secretamente, pela perspicácia, pela diplomacia, é sabotar precisamente aquilo que estamos defendendo. A falsidade pode ser, e geralmente é, propagada por meios desonestos, dissimulados, e irracionais, mas a verdade não. A verdade deve ser proclamada de forma aberta, honesta, racional, e franca.

Paulo disse que ele se opôs a Pedro, “porque [ele] era repreensível.” Esta é a quinta lição de Paulo para nós. Paulo atribuíu a culpa, e ele a atribuiu corretamente. Paulo identificou o apóstolo Pedro como censurável. O status de Pedro como Apóstolo não lhe deu imunidade de ser acusado nem da oposição aberta de Paulo. Paulo julgou a Pedro – com precisão, abertamente e de forma clara. Paulo não interpretou mal as palavras de Cristo: “Não julgueis, para que não sejais julgados”, como tantos cristãos professos fazem. Paulo julgou Pedro, com precisão e rapidez; e ele agiu em seu julgamento. Seu julgamento, é claro, não se tratava de uma questão trivial, mas do Evangelho, e do papel de Pedro em obscurecê-lo. O mesmo zelo pelo Evangelho que Paulo demonstrou em Gálatas 1, o que o compeliu a amaldiçoar aqueles que ensinam qualquer outra mensagem nas igrejas, também o compeliu a julgar e culpar Pedro por não ser direto sobre a verdade do Evangelho no capítulo 2.

Mas Paulo não terminou de nos ensinar sobre como lidar com líderes eclesiásticos que subvertem o Evangelho. Ele escreveu: “Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos.” Aqui, Paulo nos ensina que os homens que não são diretos sobre a verdade do Evangelho devem ser repreendidos publicamente: “na presença de todos.” Eles não tem que ser levados para um local reservado; eles não tem que ser tratados de acordo com Mateus 18, pois Paulo entendia, diferentemente do que muitos líderes eclesiásticos entendem hoje, que esse procedimento é irrelevante para situações em que o Evangelho está sendo distorcido e obscurecido publicamente. Os professores que ensinam o erro na doutrina da salvação não devem ser ignorados, tolerados, ou tratados reservadamente.

Além disso, Paulo repreendeu publicamente o Apóstolo Pedro, e não os homens menores que o rodeavam: “[eu] disse a Pedro na presença de todos.” Ao fazer de Pedro um exemplo, escrevendo seu nome nas Escrituras para todos os tempos, ao questionar o Apóstolo e não algum Presbítero, Diácono, ou leigo, Paulo deixou perfeitamente claro que mesmo os mais altos cargos da igreja estão subordinados ao Evangelho. Com mais razão, assim são todos os outros. Ao questionar Pedro, Paulo atuou no princípio de que quanto maior o cargo, maior a responsabilidade. Se Paulo fosse repreender Pedro hoje, ele certamente seria acusado de fazer um “ataque pessoal” a Pedro, a um pastor em boa posição na igreja, e Paulo teria sido censurado por algum professor de seminário ou tribunal eclesiástico por usar uma linguagem intemperada também. Tais críticos, não acostumados ao pensamento rigoroso, não conseguem diferenciar entre ataque pessoal e a repreensão de uma pessoa específica por deturpar o Evangelho. A preocupação de Paulo era totalmente doutrinal; ele não tinha animosidade pessoal contra Pedro. Sua preocupação com a doutrina, sua posição como cristão e apóstolo, o obrigou a enfrentar Pedro publicamente.

Onde está Paulo Quando Precisamos Dele?

Infelizmente, todas essas lições paulinas perderam-se na maioria dos cristãos de hoje. Isso também indica porque os atuais hereges, os defensores do Neolegalismo, vão ganhar batalhas (apesar de que eles perderão a guerra).

Entretanto, o apóstolo Paulo não buscou um relacionamento amistoso com seu amigo e companheiro Apóstolo Pedro. Ele queria que eles fossem de uma só mente sobre o Evangelho e a importância de não deturpa-lo. Esse é o tema consistente da Escritura: A única unidade de valor na igreja é a unidade na verdade. Relacionamentos amistosos desprovidos de tal unidade são ainda mais danosos. São relações amistosas como essas destituídas da verdade que permitem o crescimento da heresia nas igrejas.

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