Obras Sem Fé Não São Nada

lutherDizemos, portanto, com Paulo, em Rm 1.17: “A justiça de Deus é nele revelada, de fé em fé, como está escrito: O justo vivera da fé.” Porventura deveria o apóstolo ter sido instruído pelos eckianos para que acrescentasse esta glossa singular: “mas não só da fé”? Da mesma forma Rm 10.10: “Com o coração se crê para justiça.” Observa que a justiça é atribuída somente a fé, a tal ponto que ele menciona apenas o coração, sem qualquer referencia aos outros membros que poderiam atuar “. A confissão da boca, diz ele, resulta em salvação, mas onde a pessoa já é justificada pela fé.

O que quero dizer, para preterir essas tolices insonsas dos sofistas, é isto: não ha obras que justificam ou fazem justo, senão, somente a fé. No entanto, o justificado faz obras. O sentido da Escritura é este: a justificação é anterior as obras, e as obras são praticadas pelos justificados. Pois não somos justificados praticando obras justas, como diz erroneamente Aristóteles, mas, justificados, praticamos obras justas, assim como ninguém se torna bispo realizando as obras de um bispo, mas, depois de ter se tornado bispo, realiza as obras de um bispo. De igual modo, não são as obras da fé que fazem a fé, mas a fé faz as obras da fé. Não são as obras da graça que fazem a graça, mas a graça faz as obras da graça. E por isso que Deus olha primeiro para Abel (no qual se compraz) e só depois para suas obras. É isto que o apóstolo quer: somos justificados somente pela fé, não pelas obras, ainda que, como pessoas já justificadas, não omitamos as obras. E por isso ousa continuar dizendo que não há lei para o justo, pois quem já é justo pela fé não necessita de lei, mas faz obras espontaneamente. Esse modo de falar e entender nunca será entendido por tais sofistas afogados em suas obras. Pois o que ale diz em R. 2.13: “Não os que ouvem a lei, mas os que a praticam serão justificados”, diz porque são considerados justos, e não porque sejam justificados por obras. Praticar a lei é cumpri-la, ou seja, crer em Cristo.

Eles, porém, citam a Epistola do apostolo Tiago: “A fé sem obras é morta.” [2.17.] Em primeiro lugar, o estilo dessa epistola está muito abaixo da majestade apostólica e de nenhum modo pode ser comparado ao de Paulo. Depois, Paulo fala da fé viva, pois fé morta não é fé, é uma ilusão. Mas eis que os teólogos se agarram a esse um versículo com unhas e dentes, e absolutamente nada lhes importa que o restante da Escritura recomenda a fé sem as obras. Porém, este é seu costume: com um fragmento arrancado do contexto arremetem contra toda a Escritura.

Portanto, os que se gabam com o titulo de teólogos deveriam aprender, antes de mais nada, o que são fé e obras de acordo com as Escrituras, e não condenar imediatamente tudo em que estas se chocam com as opiniões inveteradas deles. Se o povo se choca com isso, que o atribuam a seus infelizes estudos, pois não ensinaram o povo a compreender a palavra de Deus e sua maneira de falar, necessária para a salvação. Eles próprios são responsáveis por tais escândalos. É com muito perigo que se pregam as obras como anteriores fé. A fé sem obras, porem, é pregada sem perigo algum. Isso porque o povo está disposto e propenso a confiar em obras, e as obras preponderam com facilidade sobre a fé. Onde, todavia, se ensina corretamente a fé pura, as obras vêm espontaneamente e sem perigo, desde que tenham aprendido que depende mais, que depende ludo da fé, que fará obras.

E um horror observar o quanto são ignorantes inclusive os teólogos — quanto mais o povo — no conhecimento da fé que professam. A Igreja está tão cheia de jactância das obras externas, que Cristo parece ter dito a respeito de nossos tempos: “Quando vier o Filho do homem, achas que encontrara fé sobre a terra?” [Lc 18.8.] Para ser breve: visto que fé é o correto e bom conceito de Deus, e que qualquer conceito por si só já leva a pessoa às obras, não ha dúvida de que quem tem a fé pratica todas as obras. Se já a imagem de tuna mulher e o amor a ela não nos deixam sossegados, mas, sem lei e sem mestre, fazem mais do que se exige, como não seria a fé muito mais capaz de realizar a mesma coisa? 0 mundo é governado somente por conceitos, e o cristão não poderia ser governado somente pela fé? Afinal, quem ensina os teólogos sofistas a fazer, sofrer, pensar e evitar coisas tantas e tão grandes por amor de seus conceitos? Não seria openas o afeto por seus conceitos? Em outra ocasião direi mais sobre isso.

E extremamente ímpio o terceiro erro, em que ele afirma que a fé não é suprimida por nenhum crime, por ser a fé a justiça, e o crime o contrario — injustiça. Sei, porém, que ele me objetara com a invenção da fé infusa e da fé adquirida; mas por acaso é digno de um bom homem, quanto mais de um teólogo, saber que a tese de alguém é verdadeira e, não obstante, procurar nela outro sentido, para garrular que ela é falsa, e assim caluniar a verdade por causa de uma expressão ou de um equivoco num vocábulo? Que eximia teologia será essa se, quando alguém diz: “O cão é um animal que ladra”, tu contestares dizendo: “Não é verdade. O cão é uma constelação celeste”, sabendo perfeitamente que o outro usou o vocábulo “cão” em sentido diferente do que tu!

Quem não odeia essa duplicidade, ou melhor, multiplicidade sofista e odiosa num Proteu, quarto mais num teólogo? Visto, portal, que Eck diz no titulo que debate “contra uma doutrina nova”, concluo, em favor da simplicidade teológica, que ele não está falando de outra fé do que falei eu; do contrário, não estaria falando contra minha doutrina nova, e o titulo seria mentiroso. Por isso afirmo que essa sua contra-tese é a mais herética e ímpia que jamais vi, pois nega a fé como a única que justifica, contra o apostolo Paulo e o Evangelho de Cristo, afirmando ainda que a fé não é suprimida por nenhum crime. Além disso, defende o livre arbítrio como senhor dos atos, contra as Escrituras.
(Martinho Lutero: Obras Selecionadas 1: 372–374)


Tiago 2:20-23 “Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta? 21 Porventura Abraão, o nosso pai, não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou (foi ativa) com as suas obras e que, pelas obras, a fé foi aperfeiçoada (completada), 23 e cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.

A fé é passiva, pois recebe a justiça e a salvação que Deus dá livremente por causa do sofrimento e da morte de Cristo. Mas a fé é ativa, quando esta serve e ama o próximo.
Onde o artigo de Justificação é entendido erroneamente, isso se reflete no caráter do culto. Se sou justificado parcialmente pela minha fé que é ativa no amor, eu devo fazer algo no culto para mostrar a Deus quanto eu o amo e quanto ele significa para mim. É contra a nossa natureza sermos ajudados. Se você não acredita em mim, pense em como um homem velho se irrita quando seus filhos tentam ajudá-lo (ou uma criança pequena que está crescendo e ficando independência). Por natureza, não gostamos que as coisas sejam feitas para nós. Desejamos a independência e auto-confiança. Mas tais coisas devem ser deixadas na porta da Igreja que ensina corretamente o artigo principal do Evangelho: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; […] para que ninguém se glorie.”


Martinho Lutero: Obras selecionadas. 2nd ed. Vol. 1. Sao Leopoldo: Sinodal, 1993. Print. 12 vols.

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Batalha da Hermenêutica… Épico!!!

Este artigo explica a diferença entre a hermenêutica luterana e a hermenêutica calvinista em relação à interpretação das escrituras. Por que eu penso que a hermenêutica luterana leva a uma leitura mais precisa das escrituras?

Este é um assunto extenso!

Primeiramente, as polêmicas entre as igrejas luterana e reformada (calvinista) são historicamente épicas. Talvez isto seja porque a hermenêutica luterana e reformada/calvinista realmente resultam em diferentes tipos de cristianismo. Mas semelhante o suficiente para que as diferenças possam ser confusas!

Uma das coisas que me ajudaram a compreender a diferença entre uma visão luterana e reformada da Escritura é a distinção entre o uso magisterial e ministerial da razão. O uso magisterial da razão fluirá mais ou menos desta forma: Razão -> Bíblia. O uso ministerial da razão fluirá mais ou menos assim: Bíblia -> Razão. A razão deve estar subordinada à autorevelação de Deus.

“A verdadeira sabedoria consiste de dois elementos: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos.”― João Calvino, Institutas I:I:1

O calvinismo começou com um texto dogmático. Em suas Institutas, Calvino aborda o cristianismo começando com o conhecimento do Deus. Este começo está enraizado na razão e na filosofia. Em outras palavras, o calvinismo diz: “Aqui está o que Deus é (usando as categorias da filosofia, razão e Bíblia). Agora, vamos falar sobre o que Ele diz e faz com base no que Ele é. Quando não entendemos algo que ele faz ou diz, voltaremos ao que Ele é como forma de nos ajudar a encontrar a nossa resposta.”

O luteranismo começou com a pregação e ensinamento centrado em Cristo (o Evangelho é a resposta ao pecado), principalmente de Lutero, decorrentes do seu encontro com Cristo nas Escrituras, mas também de outros) e as declarações de fé (credos e confissões). Continua como uma igreja que baseia todo seu ensinamento e pregação nessas declarações de fé (embora chamadas “Luteranas”, menos de um terço dessas declarações foram escritas por Lutero). Dessa forma, não há um texto dogmático oficial. Em vez disso, existem muitos textos dogmáticos luteranos que são fiéis à teologia confessional da igreja luterana. No entanto, a dogmática luterana “começa” com uma teologia da Palavra. Em outras palavras, o luteranismo diz: “Aqui está o que Deus diz. Agora, vamos falar sobre o que Ele é e o que Ele faz baseados no que Ele diz.”

Por que eu acho que esta segunda maneira é melhor?

É como o cristianismo veio até nós. Deus não apareceu a Abraão um dia e lhe lançou um livro. “Aqui, Abraão! Esta é uma dissertação fundamentada sobre meus atributos ocultos. Agora eu tenho algumas promessas para você … “Em vez disso, Deus revelou-se através do que Ele disse e do que Ele fez. Os dois primeiros versículos de Hebreus nos dão o ápice e a chave para entender essa autorevelação de Deus. “Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Hb 1:1-2). Também: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus, etc.” (Jo 1:1). Jesus é o ápice e a chave para compreender a autorevelação de Deus.

Cristo é, portanto, a chave interpretativa da Escritura no que Ele diz e no que Ele faz. Ele vive, morre, ressuscita e sobe ao Céu. Ele não vem dar uma nova “lei” como se cumprir as regras levasse à salvação (Ele não é um “Moisés melhor …” É o contrário: Moisés era um “tipo” de Jesus, Rm 5:14). Jesus envia Seus Apóstolos para ensinar/pregar e para Batizar (Mt 28:16). Em outras palavras, pregar o arrependimento e perdoar/reter pecados (Lei e Evangelho, Lc 24:44, Jo 21:19-23). O restante da Escritura é como um comentário sobre a origem e o propósito de Cristo. Ele está no centro da revelação de Deus para nós na Escritura. Ele também não escreveu um tratado. Ele nos visitou no tempo, no espaço e na história. Visto que, por meio de nosso pecado, não pudemos vir a Deus, Deus veio até nós. Quando Seu Filho subiu ao Céu, Ele não nos deixou órfãos, mas em vez disso deixou Seu Espírito. Essas três pessoas sempre estiveram a trabalhar, mas este trabalho não tinha sido claramente revelado. Quando Abraão “creu em Deus e isto foi-lhe imputado por justiça”, foi porque o Espírito trouxe fé para ele através da Palavra, reconciliando-o com o Pai. Isto aconteceu porque Jesus morreu pelos pecados de Abraão na cruz. Abraão foi escolhido antes do tempo, com certeza, mas ele foi *escolhido* quando através da Palavra de Deus Abraão creu.

O calvinismo pode levar a uma visão de Deus, onde Cristo é uma adição desnecessária ao plano de Deus. Agora, este não é o objetivo, mas este é o lugar onde ele toma outro caminho. Creio que esse erro flui naturalmente de uma hermenêutica onde os atributos invisíveis de Deus são a lente pela qual Sua revelação é interpretada (isto é, Sua “soberania”).

Isto é o que queremos dizer quando dizemos que o luteranismo permite o paradoxo (às vezes a Escritura ensina duas idéias opostas que são paradoxais à razão humana), que o Luteranismo é sacramental (Deus vem a nós no espaço, no tempo, na história através de Sua Palavra), e que o Luteranismo é “evangélico”, no sentido original desta palavra (Cristo está no centro).

Mas veja, eu não sou um doutor da igreja…. Este é apenas o meu entendimento. Um dos outros pastores desta equipe pode acrescentar algo mais. Há muito mais a ser dito… e muitas outras maneiras de dizê-lo… pode até haver um erro nesta resposta… mas espero ter ajudado um pouco. Chegar a essas percepções sobre as diferenças entre o Calvinismo e o Luteranismo fez com que tudo fizesse sentido para mim.

Rev. Robert O. Riebau

Battle of the Hermeneutics… Epic!!!

Por que a Heresia Prospera nas Igrejas?

Muitas vezes somos forçados a fazer a pergunta, “Por que a heresia prospera nas igrejas?” Poderíamos esperar que fosse assim em algumas igrejas, como as do Conselho Nacional de Igrejas que há muito tempo abandonaram a palavra de Deus como a única regra de fé e prática. Também poderíamos esperar que a heresia ganhasse pontos de apoio nas igrejas carismáticas que adicionaram a palavra de Deus as declarações iludidas daqueles que pensam que estão sob a inspiração do Espírito. Mas vemos heresias perigosas e destruidoras da alma que atingem o âmago do cristianismo e subvertem o próprio evangelho de Jesus Cristo prosperando no próprio seio das denominações conservadoras Reformadas e Presbiteriana. Isto consideramos chocante. E nós somos compelidos a lutar com a pergunta: “Como isso é possível?”

Em resposta a essa pergunta estamos postando uma edição recente da Trinity Review que procura responder apenas a esta pergunta. Nossos agradecimentos ao Dr. John Robbins, da Fundação Trinity pela permissão para publicar este artigo em nosso site.

Por que Hereges Ganham Batalhas?

John W. Robbins

O Apóstolo Paulo perdeu algumas de suas batalhas. Quando Paulo pregou o Evangelho de Jesus Cristo nas sinagogas, ele foi perseguido pelo anticristo original, o Judaísmo. Nós não sabemos, mas a tradição diz que Paulo teve uma morte violenta. (O próprio Jesus quase foi assassinado no sábado por religiosos judeus frequentadores da sinagoga que não gostaram do seu sermão; veja Lucas 4.) A maioria dos judeus do primeiro século rejeitaram a Cristo; apenas o remanescente foi salvo. A ira de Deus, exercida através de um descrente e involuntário General Tito, terminou com o culto apóstata do Templo – o alardeado Judaísmo do Segundo Templo da Nova Perspectiva sobre Paulo. Foi somente através da escrita de novas Escrituras, o divinamente inspirado Novo Testamento, e pelo estabelecimento de novas instituições – igrejas para propagar as doutrinas das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento – que o Evangelho sobreviveu ao primeiro século. Como cristão, Paulo não usou a força (como Saulo tinha feito). Ele perdeu batalhas, mas ganhou a guerra.

O reformador Martinho Lutero perdeu algumas de suas batalhas. Quando ele lançou a sua reforma doutrinária em 1517, ele esperava transformar a Igreja-Estado Romana. Em vez disso, o tirano papal o excomungou, queimou seus livros, e assassinou seus seguidores. Não houve uma reforma significativa da Igreja Romana. 500 anos depois, a Igreja-Estado Romana está maior e mais herética do que nunca. Apenas a produção de livros, sermões e panfletos, bem com o estabelecimento de igrejas protestantes e escolas, garantiu a sobrevivência da Reforma. A maioria dos romanistas rejeitaram a Cristo; apenas o remanescente foi salvo. Lutero perdeu batalhas, mas ganhou a guerra.

No século 20, o Presbiteriano J. Gresham Machen perdeu algumas de suas batalhas. Em 1923, ele escreveu um livro demonstrando que a Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos estava pregando duas mensagens diferentes, Cristianismo e Liberalismo. Seus esforços para acabar com as heresias da igreja de Auburn terminaram com Machen e outros sendo excluídos pela Igreja Presbiteriana em 1936. A maioria dos Presbiterianos rejeitaram a Cristo; apenas o remanescente foi salvo. Apenas a publicação de mais literatura, bem como o estabelecimento de novas igrejas e escolas, garantiu que o cristianismo bíblico não desapareceria nos Estados Unidos. Machen perdeu batalhas, mas Cristo venceu a guerra.

No século 21 as instituições que resultaram dos esforços de Machen foram subvertidas por hereges. Se a história serve de indicação, os hereges vão ganhar, e apenas a publicação de mais literatura, além da criação de novas instituições, vão assegurar a sobrevivência do presbiterianismo bíblico na América. A maioria dos presbiterianos norte-americanos vão rejeitar a Cristo, e apenas o remanescente será salvo.

Por que Hereges Ganham?

Existem várias razões porque os hereges ganham batalhas.

Em primeiro lugar, a Escritura nos diz que eles são mais inteligentes e astutos do que os crentes: “Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz.” (Lucas 16.8). Eles têm uma maneira de pensar que os tornam mais politicamente astutos, mais biltres, mais criativos em suas maquinações, e mais dispostos a agir de maneiras pecaminosas, a fim de alcançar seus objetivos. Roubar, mentir, e subornar é válido contanto que eles “avancem o Reino de Deus.”

Em segundo lugar, hereges introduzem idéias falsas furtivamente: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão” (Gálatas 2.4 ) e “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” (Judas 4). Eles parecem ser ovelhas, mas não são; e as idéias que eles ensinam, pelo menos a princípio, parecem ser verdade, mas não são. Através de suas palavras mansas, eles enganam a muitos a pensar que eles são irmãos em Cristo e que as idéias que eles propagam são bíblicas.

Em terceiro lugar, hereges freqüentemente usam a força para perseguir os cristãos. Força funciona; ela silencia a oposição. É por isso que os hereges e tiranos a usam. O sangue dos mártires não é a semente da igreja; somente o Evangelho é.

Em quarto lugar, e mais importante, aqueles que crêem na verdade tendem a ser lentos em reconhecer o erro e ainda mais lentos para tomar as medidas necessárias para defender a verdade. Eles carecem tanto de discernimento quanto de coragem. Esta é a questão fundamental. Os cristãos não conseguem admitir o fato de que os filhos deste mundo são mais astutos do que eles, ou que falsos irmãos agem de forma sutil, veladamente, e coagido. Mas os cristãos podem ajudar na forma como eles compreendem e respondem a tal subversão doutrinária e eclesiástica. A sua falta de discernimento provém da falta de conhecimento das Escrituras, e a sua falta de coragem é resultado de uma falta de crença nas promessas das Escrituras.

Paulo, o Nosso Modelo

Podemos aprender muito com o exemplo do apóstolo Paulo em Antioquia, e sua carta aos Gálatas, porque ele não foi nem lento em reconhecer o erro nem tímido em corrigi-lo. Nossa incapacidade de aprender e imitar Paulo é a principal razão pela qual os hereges ganham batalhas.

Paulo reconheceu o erro doutrinário rapidamente e agiu rapidamente para corrigi-lo. Ele escreveu: “E isto [um problema sobre da pregação do Evangelho] ocorreu “por causa dos falsos irmãos…Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Gálatas 2. 2,5). Paulo não tolerava (“sedia com sujeição” ao) o erro ou aqueles ensinando o erro no Evangelho “nem ainda por uma hora.” Ele foi rápido em reconhecer o erro e rápido em corrigi-lo, de modo que “a verdade do evangelho permanecesse entre vós.” Enquanto sua preocupação era doutrinária, não era acadêmica, porque ele não tolerava aqueles que estavam ensinando o erro nas igrejas. Ele entendeu o erro, e se recusou a tolerar os homens que estavam ensinando ou sendo cúmplices do erro nas igrejas.

Paulo explicou ainda como os cristãos devem responder àqueles que obscurecem o Evangelho: “E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram;”(Gálatas 2:6). Paulo não estava impressionado com a posição de uma pessoa na igreja. Deus não faz acepção de pessoas, e nem fez Paulo. Posição na Igreja, cargo na igreja, credenciais educacionais, não garantem nenhuma imunidade. Na verdade, a regra bíblica é exatamente o contrário: A quem muito é dado, muito será exigido. Quanto maior o cargo, maior a responsabilidade nas igrejas. É por isso que Paulo disse a Timóteo: “Aos que pecarem [presbíteros], repreende-os na presença de todos” (1 Timóteo 5.20).

Até agora, nós aprendemos três coisas sobre como devemos nos opor a aqueles que obscurecem ou pervertem o Evangelho:

1 – Temos de reconhecer o erro doutrinário como um pecado grave.
2 – Não devemos tolerar qualquer erro na doutrina da salvação ou naqueles que a ensinam “nem ainda por uma hora.”
3 – Não devemos nos permitir ser intimidados ou acovardados pelas reputações ou credenciais daqueles ensinando o erro na doutrina da salvação.

Mas Paulo tem muito mais a nos ensinar sobre como corrigir o erro doutrinário nas igrejas. Ele continua: “E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível” (Gálatas 2.11). Esta é a quarta lição de Paulo: Não só devem aqueles que ensinam um falso evangelho ser considerados anátema (veja Gálatas 1), mas também os cristãos devem se opor e corrigir os irmãos que toleram aqueles que pregam um falso evangelho. Em Gálatas 1 Paulo tinha amaldiçoado aqueles que pregam um falso evangelho. No capítulo 2, ele nos instrui sobre como lidar com os irmãos que toleram aqueles que ensinam um falso evangelho, assim deturpando ou comprometendo a doutrina da justificação somente pela fé. Pedro não tinha pregado um falso evangelho, mas suas ações incentivavam aqueles que pregavam. Paulo explicou: “Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, [Pedro] comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação.” Ao descrever as ações de Pedro e Barnabé como “hipocrisia”, Paulo indicou que Pedro e Barnabé acreditavam no Evangelho, mas mesmo assim eles toleravam aqueles que não criam. A tolerância do erro sobre a doutrina da salvação é pecado. É um pecado duplamente grave para os presbíteros, que foram encarregados da responsabilidade de ensinar, de alimentar as ovelhas, e de guardar o rebanho.

Além disso, Paulo se opôs a Pedro “olhando no olho” – direta e abertamente. Paulo era amigo de Pedro e seu colega Apóstolo. Paulo foi até a raiz do problema e confrontou Pedro diretamente. Paulo não tinha uma lealdade pessoal equivocada a Pedro; ele não deixou que uma falsa noção de amizade interferisse em sua responsabilidade de corrigir Pedro e defender o Evangelho. Paulo não chamou Pedro para conversar em particular e lhe sugeriu educadamente que comesse com os gentios. Paulo se opôs a Pedro diretamente face a face. Opor-se ao erro e àqueles que o toleram é algo que muitos cristãos detestam fazer. Eles preferem se lamentar, “não podemos nos dar todos bem?” Aqueles que permitem que uma visão anti-bíblica de amizade ofusque seu julgamento se esqueceram da pergunta de Paulo: “Fiz-me acaso vosso inimigo, dizendo a verdade?” (Gálatas 4.16).

Além disso, no modo como Paulo enfrenta Pedro vemos o importante princípio de que a verdade, as doutrinas bíblicas, devem ser defendidas de forma aberta, direta, e clara. Tentar defender a verdade secretamente, pela perspicácia, pela diplomacia, é sabotar precisamente aquilo que estamos defendendo. A falsidade pode ser, e geralmente é, propagada por meios desonestos, dissimulados, e irracionais, mas a verdade não. A verdade deve ser proclamada de forma aberta, honesta, racional, e franca.

Paulo disse que ele se opôs a Pedro, “porque [ele] era repreensível.” Esta é a quinta lição de Paulo para nós. Paulo atribuíu a culpa, e ele a atribuiu corretamente. Paulo identificou o apóstolo Pedro como censurável. O status de Pedro como Apóstolo não lhe deu imunidade de ser acusado nem da oposição aberta de Paulo. Paulo julgou a Pedro – com precisão, abertamente e de forma clara. Paulo não interpretou mal as palavras de Cristo: “Não julgueis, para que não sejais julgados”, como tantos cristãos professos fazem. Paulo julgou Pedro, com precisão e rapidez; e ele agiu em seu julgamento. Seu julgamento, é claro, não se tratava de uma questão trivial, mas do Evangelho, e do papel de Pedro em obscurecê-lo. O mesmo zelo pelo Evangelho que Paulo demonstrou em Gálatas 1, o que o compeliu a amaldiçoar aqueles que ensinam qualquer outra mensagem nas igrejas, também o compeliu a julgar e culpar Pedro por não ser direto sobre a verdade do Evangelho no capítulo 2.

Mas Paulo não terminou de nos ensinar sobre como lidar com líderes eclesiásticos que subvertem o Evangelho. Ele escreveu: “Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos.” Aqui, Paulo nos ensina que os homens que não são diretos sobre a verdade do Evangelho devem ser repreendidos publicamente: “na presença de todos.” Eles não tem que ser levados para um local reservado; eles não tem que ser tratados de acordo com Mateus 18, pois Paulo entendia, diferentemente do que muitos líderes eclesiásticos entendem hoje, que esse procedimento é irrelevante para situações em que o Evangelho está sendo distorcido e obscurecido publicamente. Os professores que ensinam o erro na doutrina da salvação não devem ser ignorados, tolerados, ou tratados reservadamente.

Além disso, Paulo repreendeu publicamente o Apóstolo Pedro, e não os homens menores que o rodeavam: “[eu] disse a Pedro na presença de todos.” Ao fazer de Pedro um exemplo, escrevendo seu nome nas Escrituras para todos os tempos, ao questionar o Apóstolo e não algum Presbítero, Diácono, ou leigo, Paulo deixou perfeitamente claro que mesmo os mais altos cargos da igreja estão subordinados ao Evangelho. Com mais razão, assim são todos os outros. Ao questionar Pedro, Paulo atuou no princípio de que quanto maior o cargo, maior a responsabilidade. Se Paulo fosse repreender Pedro hoje, ele certamente seria acusado de fazer um “ataque pessoal” a Pedro, a um pastor em boa posição na igreja, e Paulo teria sido censurado por algum professor de seminário ou tribunal eclesiástico por usar uma linguagem intemperada também. Tais críticos, não acostumados ao pensamento rigoroso, não conseguem diferenciar entre ataque pessoal e a repreensão de uma pessoa específica por deturpar o Evangelho. A preocupação de Paulo era totalmente doutrinal; ele não tinha animosidade pessoal contra Pedro. Sua preocupação com a doutrina, sua posição como cristão e apóstolo, o obrigou a enfrentar Pedro publicamente.

Onde está Paulo Quando Precisamos Dele?

Infelizmente, todas essas lições paulinas perderam-se na maioria dos cristãos de hoje. Isso também indica porque os atuais hereges, os defensores do Neolegalismo, vão ganhar batalhas (apesar de que eles perderão a guerra).

Entretanto, o apóstolo Paulo não buscou um relacionamento amistoso com seu amigo e companheiro Apóstolo Pedro. Ele queria que eles fossem de uma só mente sobre o Evangelho e a importância de não deturpa-lo. Esse é o tema consistente da Escritura: A única unidade de valor na igreja é a unidade na verdade. Relacionamentos amistosos desprovidos de tal unidade são ainda mais danosos. São relações amistosas como essas destituídas da verdade que permitem o crescimento da heresia nas igrejas.

As Boas Obras São Necessárias para ‘Alcançar o Céu?’

John Piper, bem como todos esses neo-calvinistas, historicamente chamados nos Estados Unidos de “The New Divinity Men (homens da nova divindade), os quais incluem pessoas como Jonathan Edwards e George Whitfield, cometem um erro teológico terrível começando com soberania e/ou eleição. Estas com certeza são doutrinas verdadeiras, mas não é o lugar por onde se deve começar. Nós sempre começamos com o que podemos saber claramente sobre Deus e isto é Seu Filho: crucificado, sepultado, ressurreto e ascendido aos céus por nós. Doutrinariamente falando esta categoria se chama soteriologia ou a obra de Cristo.

Quando começamos com a soteriologia tudo é sempre colocado em Cristo e no que ele fez por nós e assim, portanto, posso saber que a minha eleição é certa, porque Cristo, o eleito, morreu por mim e me transferiu do Reino das Trevas para o glorioso Reino da Luz (Col. 1). Quando começamos com a soberania e/ou eleição o problema se transforma em: como eu sei que sou eleito? Isto começa a abrir a porta para o velho Adão fazer seu caminho de volta para a conversa e dizer, bem é o que eu estou fazendo. É assim que você pode dizer que Jesus morreu por mim por causa do que eu estou fazendo. Olhe para todos os frutos na minha vida!

Você começa a perceber que muitos destes neo-calvinistas, em parte por causa das suas raízes Revivalistas Americanas, são muito semelhantes a muitos Pentecostais.

– Jacob Smith

Boas Novas para Cristãos Ansiosos

“A certeza da salvação para Calvino, Armínio e ICAR só pode vir através das emoções ou obras externas (frutos), o que significa que o evangelho que eles pregam nunca é um Evangelho suficiente.”

Os debates em torno da natureza da santificação são infindáveis tanto em círculos Luteranos como Reformados. Houve um pouco de controvérsia recentemente, em torno de algumas terminologias específicas utilizadas por John Piper no seu prefácio do livro recente de Thomas Schreiner sobre a justificação. Neste prefácio, Piper escreve:

2014-09-16-100002-39“A resposta cristã surpreendente é: sola fide — por meio da fé somente. Mas não se esqueça de ouvir isso com cuidado e precisão: Ele diz Justificados perante Deus pela fé somente, não alcançar o céu pela fé somente. Há outras condições para se alcançar o céu, mas não para se entrar em um relacionamento correto com Deus. Na verdade, alguém já deve estar num relacionamento correto com Deus pela…

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Justiça da Graça e Justiça da Lei

Ao ler isso percebemos que a grande maioria dos denominados cristãos evangélicos hoje, pensam como o renomado teólogo católico, Erasmus, e se contorcem ao ler Lutero.

Sem essa distinção correta da Lei e do Evangelho, não há diferença enter cristãos verdadeiros e qualquer membro de outras religiões que praticam boas obras, e vivem uma vida moral e ética correta. Eles simplesmente não conseguem compreender esta diferença que está explícita em Jesus e no seu modo de viver.

Lutero diz que os teólogos escolásticos focam muito na questão do amor, e exigem uma justiça do homem comparável a justiça de Deus, como se fazendo boas obras e tendo sentimentos nobres e sendo bons, essa justiça “infundida” – näo imputada – em nossos coraçōes fosse capaz de nos justificar.

A dialética arminiana-calvinista também faz isso – assim como todos os escolásticos eles deturpam a justiça original e a transformam em moralismo.

JUSTIÇA DA GRAÇA (DE CRISTO) X JUSTIÇA DA LEI

“Se, aqui, não sabemos distinguir entre essas duas justiças, se, aqui não apreendemos a Cristo pela fé, sentado à direita de Deus, que é a nossa vida e justiça, que, também, intercede por nós, míseros pecadores, junto ao Pai, então estamos sob a lei e não sob a graça, e Cristo não é mais salvador, mas legislador, Então, já nenhuma salvação nos resta, mas seguirão, com certeza, o desespero e a morte eterna”.

“Aprendamos, pois, diligentissimamente esta arte de distinguir essas duas justiças, a fim de que saibamos até que ponto devemos obedecer à lei. Dissemos acima que a lei não deve exceder seus limites no cristão, mas, apenas, deve ter seu domínio sobre a carne, a qual é sujeita a ela e sob ela permanece. Onde isso acontece, a lei mantém-se dentro de seus limites. Se, porém, ela quer ascender à consciência e dominar ali, vê que, então, sejas um bom dialético e que faças a distinção correta e não atribuas à lei mais do que deve ser atribuído e digas a ela: “Lei, tu queres ascender ao reino da consciência e, ali, dominar. Tu queres acusá-la de pecado, tirar a alegria do coração que tenho pela fé em Cristo e me impelir ao desespero, a fim de que pereça. Isso tu fazes contra teu ofício. Permanece dentro dos teus limites e exerce o domínio sobre a carne. Tu não deves atingir minha consciência, pois sou batizado e chamado pelo EVANGELHO à comunhão da justiça e da vida eterna, ao Reino de Cristo, no qual a minha consciência encontra repouso, onde não há lei, mas, apenas, remissão dos pecados, paz, tranquilidade, alegria, salvação e vida eterna. Não me perturbes neste setor. Na minha consciência, não reina a lei, duro tirano e carrasco cruel, mas Cristo, o Filho de Deus, o rei da paz e da justiça, o dulcíssimo Salvador e Mediador que conservará a consciência alegre e pacífica, na sã e pura doutrina do Evangelho e no conhecimento desta justiça passiva”. “Quando tenho esta justiça em mim, desço do céu como a chuva que fecunda a terra, isto é avanço para dentro de um outro reino e faço boas obras onde houver oportunidade”.
(Martinho Lutero, em seu comentário à Epístola aos Gálatas).

LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 10 – Interpretação do Novo Testamento – Gálatas – Tito. Tradução Paulo F. Flor e Luís H. Dreher. São Leopoldo: Sinodal. Canoas: Ulbra. Porto Alegre: Concórdia, 2008.Pg. 35

 

As Boas Obras São Necessárias para ‘Alcançar o Céu?’

“A certeza da salvação para Calvino, Armínio e ICAR só pode vir através das emoções ou obras externas (frutos), o que significa que o evangelho que eles pregam nunca é um Evangelho suficiente.”

Os debates em torno da natureza da santificação são infindáveis tanto em círculos Luteranos como Reformados. Houve um pouco de controvérsia recentemente, em torno de algumas terminologias específicas utilizadas por John Piper no seu prefácio do livro recente de Thomas Schreiner sobre a justificação. Neste prefácio, Piper escreve:

2014-09-16-100002-39“A resposta cristã surpreendente é: sola fide — por meio da fé somente. Mas não se esqueça de ouvir isso com cuidado e precisão: Ele diz Justificados perante Deus pela fé somente, não alcançar o céu pela fé somente. Há outras condições para se alcançar o céu, mas não para se entrar em um relacionamento correto com Deus. Na verdade, alguém já deve estar num relacionamento correto com Deus pela fé somente, a fim de satisfazer as outras condições.” [1]

Neste texto, Piper faz a distinção entre justificação e alcançar o céu. Piper argumenta que a fé sozinha é necessária para alguém ser inicialmente justificado, mas que existem outras condições necessárias após a justificação para que alguém seja recebido na glória escatológica. Estas condições são, é claro, as boas obras que acompanham a fé verdadeira. Diversos autores Reformados vieram em defesa de Piper. Mark Jones, por exemplo, escreveu uma defesa no Reforma 21 argumentando que a formulação de Piper não difere de forma significativa da tradição histórica Reformada. Ele cita Turretin como tendo dito:

“Esta mesma idéia não é menos explicitamente passada a respeito da glória futura. Pois já que as boas obras têm a relação dos meios para se alcançar um fim (Jo 3:5,16; Mt 5:8); do ‘caminho’ para o alvo (Ef 2:10; Fl 3:14); da ‘semeadura’ à colheita (Gl 6:7-8)… do trabalho à recompensa (Mt 20:1); da ‘competição’ à coroa (2 Tm 2:5; 4:8.), todos veem que existe o mais elevado e uma necessidade indispensável de boas obras para a obtenção da glória. É tão grande que ela não pode ser alcançada sem elas (Hb 12:14; Ap 21:27).” [2]

No cerne desta discussão está a diferenciação que é feita entre a justificação presente e a recepção na glória escatológica. Isso permite que alguns escritores argumentem que a salvação é pela fé somente num certo sentido (justificação), e pela fé e santificação num outro (a entrada no céu). Isto é semelhante as distinções feitas pela Nova Perspectiva sobre Paulo (NPP), bem como alguns escritores dentro da Visão Federal que distinguem entre dois sentidos de justificação: presente e escatológica. Existem duas preocupações principais que eu tenho com relação a este tipo de linguagem. Em primeiro lugar, isto separa a justificação no presente e a vindicação escatológica de uma pessoa. Estes não são dois eventos separados, mas a justificação é a vindicação escatológica de uma pessoa recebida de modo proléptico (antecipatório). Assim, se a justificação é recebida sola fide, então da mesma maneira é qualquer bênção soteriológica escatológica. Sim, é verdade que todos os cristãos que possuem fé também irão realizar boas obras, e sim, é verdade que estas obras irão evidenciar a realidade da fé de uma pessoa no julgamento final. Também é verdade que ninguém é justificado sem também ter começando uma vida de santificação, e que existem recompensas celestes para as boas ações realizadas. No entanto, a necessidade de boas obras, e a inevitabilidade de boas obras não as tornam uma condição para entrar na vida eterna. Em seu zelo para combater o antinomismo, é meu medo que esses escritores estejam comprometendo a natureza integral e gratuita da salvação.

Em segundo lugar, eu me preocupo com essa linguagem pastoralmente. Claro, os teólogos podem fazer distinções mais sutis entre a justificação e “alcançar o céu”. Podemos falar de diferentes tipos de necessidades, chamando boas obras de uma “necessidade consequente” para a salvação, etc. Mas, são essas distinções valiosas para um membro comum da igreja? Se eu pregar e usar a frase “boas obras são necessárias para a salvação,” como é que isto vai ser compreendido por minha congregação? Infelizmente, esta última análise, coloca o cristão no mesmo dilema que a igreja medieval. Sim, eu posso rejeitar a linguagem da meritocracia, e falar sobre a salvação pela graça, mas em última instância não acabamos direcionando as pessoas de volta para suas próprias boas obras para terem a garantia da salvação? Que benefício há para a justificação no passado ser recebida sola fide, mas a salvação futura ser duplamente de fé e obras? Eu entendo que teológica e linguisticamente isto difere do sistema Romano Medieval, mas me pergunto se realmente difere pastoralmente?

Os autores da Fórmula de Concórdia abordaram exatamente esta questão, e ao fazê-lo, fornecem algumas observações extremamente valiosas:

22] “Mas aqui temos de estar bem atentos para que as obras não sejam atraídas e se misturem com o artigo da justificação e salvação. Portanto, as proposições são justamente rejeitadas, que aos crentes boas obras são necessárias para a salvação, de modo que seja impossível ser salvo sem boas obras. Porque são diretamente contrárias à doutrina de particulis exclusivis in articulo iustificationis et salvationis (sobre as partículas exclusivas no artigo da justificação e salvação), isto é, elas entram em conflito com as palavras de São Paulo com as quais ele excluiu totalmente as nossas obras e méritos do artigo da justificação e salvação, e atribuiu tudo à graça de Deus e mérito de Cristo somente, como explicado no artigo anterior. 23] Novamente, elas [essas proposições relativas à necessidade de boas obras para a salvação] tiram das consciências aflitas e conturbadas o conforto do Evangelho, dão ocasião a dúvida, são, em muitos aspectos perigosas, fortalecem a presunção em sua própria justiça e confiança em suas próprias obras; além disso, elas são aceitas pelos Papistas, e em seu interesse invocadas contra a doutrina pura da salvação somente pela fé. 24] Além disso, elas são contrárias ao modelo das sãs palavras, como está escrito que a bem-aventurança é apenas do homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras, Rm 4:6). Da mesma forma, no Sexto Artigo da Confissão de Augsburgo, está escrito que somos salvos sem as obras, somente pela fé.” [3]

Eu sei que John Piper, Mark Jones, Kevin DeYoung, e outras pessoas que têm utilizado esta terminologia não estão intencionalmente a comprometer a doutrina da justificação pela fé, e eles certamente iriam rejeitar a linguagem de Roma a este respeito. Temo, porém, que esta teologia seja perigosa pastoralmente, especialmente para as consciências sobrecarregadas que precisam ser apontadas para as promessas incondicionais de Deus, tal como constam em seus meios da graça.

[1]  http://www.thegospelcoalition.org/blogs/justintaylor/2015/09/15/john-pipers-foreword-to-tom-schreiners-new-book-on-justification-by-faith-alone/
[2] – Leia mais em: http://www.reformation21.org/blog/2015/09/in-defense-of-piper.php#sthash.h8RBITcZ.dpuf
[3]  http://bookofconcord.org/sd-goodworks.php


Sobre Jordan Cooper
Jordan Cooper é o pastor da Faith Lutheran Church em Watseka, Illinois. Ele é o anfitrião do podcast Just and Sinner, e autor dos livros “Christification: A Lutheran Approach to Theosis” [Cristificação: Uma Abordagem Luterana para a Theosis], e “The Righteousness of One: An Evaluation of Early Patristic Soteriology in Light of the New Perspective on Paul” [A Justiça de Um: Uma Avaliação da Soteriologia Patrística Antiga à Luz da Nova Perspectiva sobre Paulo]. Ele dirige a Just and Sinner Publications com sua esposa Lisa, e tem dois filhos: Jacen e Ben.


Traduzido por Claudio L. Chagas – Are Good Works Necessary to “Attain Heaven?” – Jordan Cooper | Just and Sinner

Tomar decisões: princípios para boas escolhas

LIVRE ARBÍTRIO E A ÉTICA DA DECISÃO

“O homem pode ser livre para tomar inúmeras decisões importantes, mas há uma escolha que ele não pode fazer. O homem não pode escolher não escolher.” (Forell IV)

A VIDA DO HOMEM DEBAIXO DA LEI

“Permita-me ilustrar. É noite. Um homem está em um barco que está sendo levado lentamente pela corrente em direção a uma cascata. Esse homem, que está bem acordado em seu barco, não pode escapar de fazer uma opção. É verdade que todas as suas opções podem no final ser sem sentido. Ele pode começar a remar furiosamente e ainda assim ser levado pela corrente por sobre a borda para a destruição. Pode não fazer absolutamente nada e a corrente pode prender o barco contra uma rocha, conservando-o em segurança até o amanhecer. Mas esse homem não sabe qual é a decisão adequada, e percebe que não fazer nada também é uma decisão. A corrente está levando seu barco, quer ele goste, quer não. Ele não pode pedir tempo para ponderar as alternativas possíveis. Lá está ele sentado no barco, e tudo o que faz ou deixa de fazer o compromete. Não tomar uma decisão também é uma decisão. Ele não pode escapar de sua liberdade; está condenado a ser livre.”

Forell, George W. Ética Da Decisão: Introdução À Ética Cristã. 8th ed. São Leopoldo, Brazil: Editora Sinodal, 1973. Print.