O Que é Pietismo?

O Pietismo e sua Influência no Mundo Evangélico

por Ryan M. Reeve (Transcrição da palestra Lutheran Pietism do vídeo do YouTube)

Nesta palestra vamos estudar o Pietismo Luterano, e a principal mudança teológica na vida da igreja, que começou no século 17, e que afetou tantas futuras tradições protestantes.

Quando examinamos o Pietismo, temos que entender que isto é, na verdade, um Elo Perdido para muitos cristões, ao perceberem a mudança dos primórdios do protestantismo, com sua ênfase na justificação pela fé e nos modelos confessionais, para algo que começava a parecer cada vez mais evangélico.

Na verdade, como a maioria das pessoas que chegam a esse período do Pietismo tendem a descobrir, a igreja durante esses movimentos, começou a se parecer cada vez mais com a igreja moderna. Com ênfase no Quietismo emocional, um entendimento pietístico da vida devocional e a experiência da santificação como sendo o objetivo principal da vida cristã.

Agora, alguns pontos precisam ser destacados antes de prosseguirmos, para situar a conversa de forma que as pessoas entendam todas as diferenças que ocorreram e como elas foram recebidas e mudaram as coisas a partir da primeira Reforma Protestante.

Primeiramente, é preciso destacar que, apesar do título desta palestra ser Pietismo Luterano, os luteranos, desde o início do Pietismo até então, tem mais ou menos, rejeitado o Pietismo. Não em princípio, antes de mais nada, mas na forma como ele se desenvolveu e as mudanças que trouxe na ênfase do evangelho luterano. Então, quando falo Pietismo Luterano aqui, não quero dizer que isso é aceito por luteranos. Mas que teve sua origem no período da Reforma Luterana na Alemanha, e as pessoas inicialmente envolvidas eram luteranos. Mas, de novo, tradicionalmente os luteranos sentem que isso foi uma traição da mensagem luterana. E eu penso que à medida que percorremos estes desenvolvimentos, você começará a entender porquê as mudanças são bastantes significativas.

Mudanças no Pietismo

  1. Esgotamento com  brigas dogmáticas entre Protestantes
  2. Desconfiança com a crença nas confissões de fé.

Podemos listar alguns pontos sobre o Pietismo, em geral, e dar-lhe forma e nuances a nível global. Pietistas partem da posição que eles estão tristes e insatisfeitos com onde o Protestantismo chegou, mais ou menos pela metade do século 17. Há vários fatores aqui.

Em primeiro lugar, há um crescente desgaste com as brigas entre Católicos, e internamente, entre diferentes grupos protestantes. Em particular, luteranos e escolásticos calvinistas gastaram muito tempo debatendo entre si nos livros. Se você fosse para um centro de treinamento Luterano, para receber treinamento para ser um pastor, algo como um seminário nos dias de hoje, grande parte da atenção seria, dogmaticamente, para distanciar e expor as diferenças entre a mensagem luterana em tópicos como os sacramentos ou sobre a Lei, contra as posições equivalentes do calvinismo e da fé reformada.

No entanto, cada vez mais no século 17, e isto também se aplica ao Anglicanismo e outros movimentos, sempre surgem pessoas que começam a dizer: “Será que podemos parar de brigar tanto? Definir quem não somos não é o mesmo que definir quem somos”, talvez eles digam. É uma característica um pouco injusta, mas uma das coisas que temos que entender é, que há um cansaço causado pelas brigas. Mesmo se as brigas entre calvinistas e luteranos não tenham se transformado numa guerra sangrenta, ainda assim, a constante disputa de nós contra eles, afastou algumas pessoas durante o século 17.

Então este é o Ponto 1: você começa a ver um movimento se afastando da doutrina, e um movimento a favor do coração, pode-se dizer.

Eles podem tentar fazer tudo pelas obras. Ou de forma mais perniciosa, eles tentam entrar pela fé e permanecer pelas obras.

A outra macrocategoria que ocorre durante o movimento pietista, é que começa a haver uma grande desilusão com a ideia de que somente crer no Evangelho é suficiente para a vida cristã. Até agora já examinamos Lutero extensivamente, e o constante diálogo entre Lutero e o luteranismo atual, com sua crença que nossas tentativas de salvarmos a nós mesmos para afetar nossa própria justificação ou santificação, ou tentativas frustradas. Os cristãos sempre tentaram fazer isto. Eles podem tentar fazer tudo pelas obras. Ou de forma mais perniciosa, eles tentam entrar pela fé e permanecer pelas obras. Lutero, é claro, foi rapidamente contra isto. Ele não queria ver isso sendo ensinado ou crido na vida cristã. Lutero também cria, que não é fácil sempre lembrar a si mesmo da importância do Evangelho. Que Cristo fez a obra. Portanto, nossas obras após a justificação, após a nossa conversão, não devem ser vistas como uma tentativa nossa de fazer Deus feliz, mas devem ser vistas à luz da justificação pela obra de Cristo. Lutero gostava de dizer, assim como o luteranismo confessional subsequente, que a santificação acontece espontaneamente. Não é algo que trabalhamos para ter. É algo que acontece pelo constante ouvir do Evangelho.

“A santificação Acontece Espontaneamente. Não é algo que trabalhamos para ter. É algo que acontece pelo constante ouvir do Evangelho.”

Entre os pietistas, no entanto, há uma reação significativa conta esta posição. Agora, a maioria dessas pessoas são luteranos astutos o bastante para não tentar dizer que você simplesmente faz boas obras para salvar a si mesmo. Ao invés disso, eles vão por um caminho alternativo. Pietistas começam a dizer, que não são apenas obras, por si só, ações por si só, que nos salva, ou que moldam nossa santificação. Ao invés disso, eles começam a se concentrar na vida emocional, e é daí que vem o nome. Pietsmo, na época atual, é algo como a palavra que usamos hoje para emoções. Desejos elevados é o que podemos dizer no século 21. Emoções piedosas, fortes sentimentos sobre o Evangelho, essas coisas. Em outas palavras, o Pietismo contém uma chamada renovada forte desta separação da cabeça e o coração.

O Pietismo contém uma chamada renovada forte desta separação da cabeça e o coração.

Esta separação da cabeça e o coração, que ocorre nas igrejas de tempos em tempo, é uma distinção falsa. Ela não parte naturalmente das Escrituras. Certamente que há uma distinção entre o que sabemos e o que sentimos ou cremos. Mas eu sempre lembro as pessoas. A Bíblia é da mesma forma tão rápida em dizer: Você crê nisto, você se sente emocionalmente atraído para isso? Por que então não entendem? Por que não pensam mais profundamente sobre o Evangelho ou Cristo? Foi o que Paulo quis dizer ao repreender as pessoas por ainda estarem no leite e não passarem para a carne. Ele diz, vocês amam a Cristo, vocês pertencem à fé? Por que vocês não desenvolvem um conhecimento realmente profundo de quem Cristo é, das Escrituras, eu diria?

É claro, a Bíblia fala a respeito de pessoas que conhecem em sua cabeça, mas não em seus corações. Você pode dizer que o testemunho Bíblico tende a ser uma distinção, na qual ambos, nossa cabeça e nosso coração são caídos e preguiçosos, em que acreditamos, às vezes, que sabemos coisas e, portanto, isso equivale a acreditar ou sentir algo, e vise e versa. Que sentir é tudo o que importa e o que sabemos sobre nossos sentimentos irá destruir nossas emoções. Com o tempo, em certas fases da história da igreja, sempre surgiu esta distinção bastante artificial entre cabeça e coração. E a tendência é que diferentes grupos escolhem um lado ou o outro. E eles afirmam que esta única coisa, mais conhecimento ou mais paixão, é a única coisa de que se trata a vida cristã. Ambas, eu afirmo, são distinções falsas. Ambas se baseiam num falso entendimento de quem somos.

Uma ótima analogia para isso é a vida matrimonial. Imagine alguém que acorda na lua de mel e vira para o conjugue, e diz: “Amor, eu estou feliz por estarmos casados e termos esse novo relacionamento maravilhoso. Eu estou me sentindo muito apaixonado agora. Esta é a fase da lua de mel, a fase eufórica. Mas vamos passar o resto das nossas vidas não aprendendo mais nada sobre o outro. Vamos apenas passar as nossas vidas aproveitando a paixão”. Bem, se você fizer isso, o seu casamento não vai ser muito bom.

O oposto também é verdadeiro. “Amor, eu realmente não quero falar sobre as nossas emoções, vamos apenas falar sobre os fatos. Você poderia me enviar um memorando com todas as suas reivindicações e todas as suas ideias? Vamos colocar a vida emocional fora disso”.

Como pode imaginar, um relacionamento sempre deve ser construído, tanto na vida conjugal como na vida cristã, com um sentimento sincero ou uma paixão verdadeira por quem você ama. Neste caso, Deus. Mas, porque você os ama, sempre há este compromisso de aprender mais coisas que eles amam e apreciam, e as coisas que o ajudam a entendê-los melhor. Então, eu sempre digo que a educação teológica, até mesmo estudos aprofundados de vários assuntos, como Patrística, por exemplo, são partes importantes do relacionamento que temos com Deus. A cabeça e o coração estão sempre unidos. Eles não estão separados de acordo com a Bíblia. Ambos estão sujeitos ao erro. Ambos estão sujeitos a se tornarem frios. Então o equilíbrio apropriado, pode-se dizer, é sempre se concentrar em ambos. Foque em um e você perderá os dois. Foque em ambos, ao mesmo tempo, e você terá um relacionamento real.

Bem, no Pietismo, você vê novamente essa distinção. Eles começaram a dizer que a aprovação confessional de certas doutrinas é, na verdade, um conhecimento de cabeça frio. Apenas fatos simples sobre quem é Cristo e o que ele fez. Agora, esta é realmente uma maneira caluniosa de entender o evangelho de Lutero. Lutero sempre falou sobre como nossos corações não são o foco do Evangelho. Ao invés, há uma concordância ou compreensão. Um ouvir realmente conhecedor do Evangelho dizendo: “Eu sou caído. Eu sei disso, mas eu ouço esse Evangelho e eu confio nele”. Então, não é de admirar que muitos dos luteranos dos dias de Lutero começaram a falar sobre a compreensão objetiva do que Cristo fez por nós.

Agora, não vamos dizer que todos depois que Lutero fizeram isso muito bem. Certamente houve conversas secas, áridas e enfadonhas sobre o Evangelho, que pareciam analisar toda sorte de distinções sutis de uma maneira que talvez não fosse tão apaixonada, como o próprio Lutero poderia ter sido. Mas o que o Pietismo faz em reação a isso é que ele começa a ver o problema não como sendo das próprias pessoas, que se tornaram frias por si mesmas, mas sim a própria doutrina que começa a ser problemática. A doutrina não salva, todos sabemos disso. Mas eles começam a dizer que mesmo o processo de descrever as doutrinas da santificação e justificação, as doutrinas da Bíblia, tornam-se o problema. Então o que vemos acontecendo aqui com o Pietismo, é um dos problemas históricos mais comuns quando você vê um movimento distante de outro movimento. Esse é o problema da oscilação do pêndulo. Eu sempre lembro às pessoas que a resposta a um extremo quase nunca é o extremo oposto. Mas, com o Pietismo, você começa a ver esse tipo de balanço do pêndulo.

Você avança em uma direção, e se é verdade a alegação que os Luteranos no século 17 avançaram demais em direção da doutrina abstrata e se afastaram do real lado emocional e existencial que essas doutrinas implicam para a vida cristã. Se essa alegação for verdadeira. Bem, a resposta é encontrar um equilíbrio, o real equilíbrio luterano entre ambos.

O Pietismo, porém, se move para o outro extremo, pode-se dizer assim. Eles começam a se concentrar em sentimentos e desejos piedosos, cada vez mais à detrimento de qualquer compreensão doutrinária do próprio Evangelho. A razão pela qual isso é problemático, é porque você nunca pode fugir da doutrina. Como veremos aqui, mesmo aqueles que são pietistas, começam a elaborar uma doutrina de justificação, que não é melhor. Simplesmente não é considerada. Eles começam a dizer coisas que, francamente, se tivessem lido melhor o que Lutero escreveu, faria com que percebessem que não são mais luteranos.

Então, quando olhamos para o Pietismo, há alguns movimentos realizados por eles. E essas são algumas das características gerais: Alguns movimentos específicos dentro do Pietismo o marcam como um movimento ao todo até o final.

A Abordagem Pietista

  1. separação da cabeça e o coração.
  2. diminuição da ênfase confessional
  3. anti-institucional (grupos pequenos etc)
  4. estudo pessoal da Bíblia
  5. hermenêutica diferente (emoções)

Em primeiro lugar, como já mencionamos. Eles têm uma separação da cabeça e coração.

Em segundo lugar, por causa dessa distinção, eles começaram a enfatizar que o que marca alguém como um cristão não é sua confissão da fé. Não é a exposição do que eles acreditam. Pense no Credo dos Apóstolos ou no Credo de Nicéia. Estas sistematizações, essas gramáticas do que acreditamos. E há uma variedade deles. Mas o que acaba acontecendo no Pietismo é que eles dizem que a carta confessional está morta. O foco nisso como algo que acreditamos não é mais importante. O importante é a vida emocional. Na medida em que podemos nos concentrar nisso, não precisamos mais focar nos padrões confessionais como sendo as coisas que marcam e nos diferenciam.

De repente, o envolvimento leigo, a liderança leiga, importa mais, ou infinitamente mais, do que a do pastor, para o estudo pessoal da Bíblia.

Em terceiro lugar, o Pietismo tende a ser relativamente anti-institucional, quando se trata da igreja. Como veremos aqui, é o Pietismo que se torna, pode-se dizer, o fundador dos pequenos grupos como um movimento de igrejas dentro das igrejas, que é francamente tão comum na vida da maior parte da igreja hoje, pelo menos no mundo ocidental. A idéia é que a assembléia corporativa do povo de Deus é boa, mas não é onde a igreja acontece. A igreja, os Pietistas começam a dizer, acontece em nossos pequenos grupos. E há uma relativa depreciação do culto corporativo no domingo. Há uma relativa depreciação do pastor como líder e expositor do Evangelho para o povo de Deus. De repente, o envolvimento leigo, a liderança leiga, importa mais, ou infinitamente mais, do que a do pastor, para o estudo pessoal da Bíblia. Agora, isso é uma coisa maravilhosa. Isso é algo que, francamente, não poderia ter acontecido antes. Muitas vezes, as pessoas gostam de perseguir a idade média e até o século 16, pelo seu foco corporativo e pastoral na liderança, em termos da pregação e estudo bíblico.

stock-photo-johann-gutenberg-right-in-engraving-from-252141904Bem, você tem que entender o contexto. Antes da Prensa Móvel de Gutenberg, que não é a primeira prensa móvel, mas é uma revolução em como a impressão ocorre. Gutenberg conseguiu descobrir uma maneira de não fazer cada página como um único bloco de madeira ou metal soldado. Em vez disso, ele encontrou um suporte dentro do qual ele poderia colocar letras. Então ele poderia mover essas letras, criando essencialmente um novo modelo para cada nova página de um livro na velocidade da luz. Imagine se puder, ter que entalhar ou criar uma matriz exclusiva para cada página de um livro. Essencialmente, era assim que o modelo mais antigo de impressão funcionava. Como resultado, na Idade Média o custo de uma Bíblia era aproximadamente o custo da compra de uma casa. Elas simplesmente eram muito caras. Isso é a razão porque as Bíblias eram muitas vezes acorrentadas nas igrejas ou nos mosteiros. Eles não as acorrentavam porque as pessoas não as desejavam, e queriam mantê-las longe delas. Eles as acorrentavam porque elas eram tão caras, que e as pessoas as roubavam e fugiam com elas. As pessoas queriam ler suas Bíblias. Bem, com Gutenberg, particularmente quando entramos no século 17, o custo da impressão agora é dramaticamente menor. Agora, as pessoas estão começando a aumentar sua alfabetização, porque eles aumentaram o acesso a essas coisas.

Então, o que o Pietismo começa a fazer é capitalizar no fato de que tantas pessoas podem ler e tantas pessoas podem possuir suas próprias Bíblias. Não é tão difundido quanto é hoje. Certamente, não após a revolução tecnológica dos computadores e esses dispositivos onde podemos ter versões eletrônicas da Bíblia em todos os nossos aparelhos quase que simultaneamente. Sem mencionar a variedade de traduções diferentes que podemos ter ao nosso dispor sem muita dificuldade. Mas ocorre um aumento relativo na alfabetização e acesso à Bíblia. Então o Pietismo começa a enfatizar o estudo pessoal da Bíblia. Individualmente, ou mais importante, no pequeno grupo.

Pietistas trazem uma nova hermenêutica ao texto. Em seus pequenos grupos, em seus estudos pessoais da Bíblia, a ênfase sempre, sempre é: Você lê um texto e pergunta. “Como isso fez você se sentir?

Por último, o Pietismo traz consigo uma hermenêutica diferente. A hermenêutica protestante mais antiga, por assim dizer, era que a palavra de Deus é inerrante – o que não é uma doutrina exclusiva, é claro. Os Católicos acreditam o mesmo sobre as Escrituras – mas também é clara. Portanto, os protestantes enfatizavam que a interpretação das Escrituras é relativamente objetiva, e que não precisamos da igreja ou do papado para definir ou codificar certas doutrinas para nós.

Bem, frequentemente, a prática dos Protestantes era examinar as escrituras e perguntar: “O que Deus está nos ensinando aqui?” Não apenas intelectualmente, mas havia uma ênfase em saber o que o texto significava. Você não se coloca dentro do texto, para colocar uma roupagem mais do século 21. Em vez disso, o texto ensina algo a você. Ele te sacode, surpreende você.

Pietistas trazem uma nova hermenêutica ao texto. Em seus pequenos grupos, em seus estudos pessoais da Bíblia, a ênfase sempre, sempre é: Você lê um texto e pergunta. “Como isso fez você se sentir?” De certa forma, você pode dizer que os pietistas trazem uma experiência pessoal mais subjetiva aos textos. Eles se concentram menos no que o texto significa objetivamente e mais em si mesmos como um ser existencial que precisa descrever o que ele ou ela sente ao ler as Escrituras. Agora, ninguém no protestantismo vai negar que devemos ser honestos sobre nossas próprias respostas emocionais subjetivas às Escrituras. A questão aqui é que o pietismo acredita, em um nível hermenêutico, que este é o principal caminho, a forma principal, ou a única forma de ler as Escrituras. Tentar extrair doutrina e ensinamentos e manusear a Escritura de qualquer maneira vista como intelectual, é considerado irrelevante para a vida cristã. E às vezes, é considerado prejudicial para a vida cristã.

História do Pietismo

Muito bem, depois dessa longa introdução sobre a cultura geral do Pietismo. Tivemos que fazer isso porque o pietismo prossegue por pouco mais de um século, e continua muito além. Mas agora iremos examinar exatamente como o Pietismo surge no contexto da Alemanha Luterana.

Precursores do Pietismo

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Em primeiro lugar, há o que hoje chamamos de Precursores do Pietismo. Há alguns deles. A maioria dos precursores, se concentra e se baseia numa aplicação genérica e mística da vida cristã. Havia um místico famoso na Alemanha, chamado Johann Tauler. Um homem que se concentrou mais na experiência existencial subjetiva da vida cristã. Ele é da Idade Média. Então ele é mais uma pessoa mística, pertencente a uma tradição monástica. Tauler tinha uma ênfase de longa data e uma influência em várias pessoas. Ele até influenciou um pouco Lutero. A sua compreensão de como o Evangelho e a forma como a vida cristã nos encontram existencialmente, certamente não é uma coisa ruim. O problema, é claro, com toda essa sorte de misticismo, é que ele pode facilmente descer ao puro misticismo, onde a vida pessoal se torna tudo o que importa. De certa maneira, alguns desses precursores fazem mudanças sutis no início e eventualmente, elas se tornam bastante significativas e se afastam das doutrinas ou padrões confessionais. Qualquer exposição do que sabemos ser verdadeira, para uma ênfase num sentimento pessoal mais místico sobre como a vida cristã deve ser vivida.

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Johann Arndt

O principal precursor do movimento Pietista é um homem chamado Johann Arndt. Arndt viveu na segunda metade do século 16 e morreu em 1621. Levando-o até século 17. Arndt era um luterano tradicional, treinado em dogma tradicional em teologia, e ele se tornou um pastor. Arndt, porém, foi influenciado por essa tradição mística de Tauler, lá nas terras alemãs. Partindo daí, ele começou a focar em sentimentos e experiência, como a ênfase e centro da vida cristã. Muito disso veio do fato de que Arndt, tendo tentado aplicar seu treinamento confessional e dogma, quando ele se tornou um pastor, ele na verdade se desiludiu. Não seria um exagero dizer que Arndt se desiludiu com sua própria pregação. E se você é um pastor e se desilude a si próprio, então você tem alguns problemas. Então, Arndt inicia uma busca de redescoberta e refundamentação de si mesmo em algo que fosse mais apaixonado do que aquilo que os modelos confessionais tinham deixado para ele. Então, em 1606, Arndt publicou um livro chamado Verdadeiro Cristianismo.

Agora, sempre que você vê um livro como este, eu sempre alerto às pessoas. Procurem sempre por adjetivos e advérbios como indicação da direção que o livro está tomando. Um livro intitulado Verdadeiro Cristianismo, obviamente, implica que existe um falso cristianismo em curso, lá nas terras alemãs. Então, o que Arndt está assegurando é que ele redescobriu o verdadeiro cristianismo. O verdadeiro batimento cardíaco dele. Bem, Arndt e outros precursores desse movimento pietista, como acabaria por ser conhecido, introduziram uma mudança nas pessoas, onde elas começam a dobrar a aposta, sobre o que significa estar emocionalmente ligado e investido na vida cristã.

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Philip Jacob Spener

Pode-se dizer que Spener começa a se mover mais francamente numa direção Anabatista, em termos de piedade interna e santificação como objetivo da vida cristã.

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Símbolo dos Valdenses Lux lucet in tenebris (“A luz Brilha na Escuridão”)

Avançamos uma geração e chegamos ao homem, que pelo menos a maioria dos estudiosos, considera ser o pai do movimento Pietista. Philip Jacob Spener. Spener vive e escreve e exerce seu ministério na segunda metade do século 17. Ele morre em 1705, no início do século 18. Spener foi, na verdade, influenciado por Arndt, e ele leu Verdadeiro Cristianismo e outros livros como esse. Isso desencadeia em Spener uma vida meio errante, onde ele viaja de um lugar para o outro, aprendendo com todos os diferentes tipos de protestantismo. Ele viaja para Genebra por um tempo, acredite se quiser, que na sua época, dada a hostilidade entre as confissões reformadas e luteranas, passa uma leve sensação de que Spener está procurando além do aprisco luterano por algumas respostas. Ele fica impressionado com a piedade externa, pelo menos, que ele experimenta em Genebra. Ele também viaja e passa algum tempo com os Valdenses, que é um grupo das regiões da Suíça. Pode-se dizer que Spener começa a se mover mais francamente numa direção Anabatista, em termos de piedade interna e santificação como objetivo da vida cristã. É muito difícil, eu vou dizer agora, se você realmente olha o que Spener diz, compreendê-lo a essa altura como sendo um luterano. Agora, Spener não abandona o luteranismo. Ele permanece um luterano até o dia da sua morte. Cada vez mais, porém, ele é atacado pela instituição dentro do mundo luterano. E eu penso que há boas razões, especialmente quando olhamos o que Spener diz, para entender porque havia preocupação.

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“Ninguém será justificado além daqueles que intencionarem a santificação”

Spener publicou um livro conhecido hoje em inglês como Pious Desires ou Pia Desideria em seu original. Spener essencialmente pegou o cerne do que Arndt e outros haviam discutido sobre a vida cristã e colocou tudo isso em seu livro. Na verdade, Pious Desires, é o livro de onde tiramos o nome Pietismo. É Importante assim. Spener elabora um programa, pode-se dizer assim, sobre como a vida cristã deve ser vivida. E mais importante, como a igreja luterana poderia ser refundada com um compromisso por desesos piedosos. O diagnóstico é sempre que o modelo confessional da igreja luterana é insuficiente para a vida cristã. Que a mera pregação da Lei e Evangelho é problemática, e que deve haver algo que gere ou cultive, como o título do livro sugere, desejos piedosos.

Pious Desires

  1. “Uma igrega dentro da igreja” (pequenos grupos)
  2. Justificação pela fé E emoções/piedade
  3. Treinamento teológico deve estudar apenas a vida prática

Há três coisas na obra de Spener que podemos destacar. E essas se tornam quase a base do Pietismo da época de Spener, à medida que se refletem através de várias denominações diferentes e se espalha por completo na época atual com o evangelicalismo. Essas três coisas tendem a vir do Pious Desires. E elas realmente incorporam essa nova ideia de uma nova direção, que novamente forma tanto da história subsequente do protestantismo.

Spener está quase sinalizando o que iria acontecer ao longo do próximo século. Onde não é mais o Pastor que lidera, conduz e pastoreia a igreja. Mas ao invés disso, temos que envolver os leigos para liderar a igreja, apaixonadamente por nós. Esta é a característica do Pietismo de Spener. Ministério de pequeno grupo e estudo bíblico.

Em primeiro lugar, Spener argumenta, como disse no início, em termos do macro-entendimento do Pietismo. É Spener que enfatiza que há uma igreja dentro da igreja. A reunião corporativa, o culto dominical da igreja é insuficiente para fundamentar o povo de Deus. Deve haver, ele alega, grupos pequenos. Esses grupos pequenos devem ser dirigidos por leigos. Eles devem ter paixão e dar voz as pessoas. Pode-se dizer que o que está acontecendo aqui é uma democratização um pouco fragmentada da igreja. Agora note que Spener morre em 1705. É o século 18, que nos dá a idade democrática, a idade republicana do desejo entre todos os países da Europae até no Novo Mundo, para enfatizar a participação dos leigos, da pessoa comum, seja na vida política, ou neste caso, a igreja. Spener está quase sinalizando o que iria acontecer ao longo do próximo século. Onde não é mais o Pastor que lidera, conduz e pastoreia a igreja. Mas ao invés disso, temos que envolver os leigos para liderar a igreja, apaixonadamente por nós. Esta é a característica do Pietismo de Spener. Ministério de pequeno grupo e estudo bíblico. Uma diminuição na ênfase da igreja como um todo se reunindo coletivamente.

Spener se afasta claramente da justificação somente pela fé, para se transformar, mais ou menos, em justificação pela fé e piedade.

Em segundo lugar. Spener se afasta claramente da justificação somente pela fé, para se transformar, mais ou menos, em justificação pela fé e piedade. Esta é uma citação do Pious Desires: Spener escreve: “Ninguém será justificado além daqueles que intencionarem a santificação”. Você quase pode ouvir Lutero rolando na sua tumba sobre essa citação. Um de seus pastores luteranos, em pouco mais de um século, está afirmando a coisa que Lutero viveu a sua vida toda para negar. Spener, aqui, essencialmente confundiu as categorias. Eu já disse isso antes e vou repetir aqui. Os protestantes acreditam na santificação. Eles apenas não acreditam que a santificação é a base de nossa justificação. A santificação não é uma coisa que você olha e diz. Bem, se estou sendo santificado, então sou justificado. Em vez disso, é a ênfase na justificação como uma obra que não realizamos.

O que Spener está argumentando é que você deve ser emocionalmente santificado. Se você não está sentindo esses desejos piedosos, então você deve duvidar se você é ou não justificado. Observe novamente, o quão sutil é esse problema. Não basta simplesmente dizer que a justificação tem um efeito. Em vez disso, temos que garantir que entendemos como esse efeito é compreendido.

Portanto, nossa santificação é algo que não realizamos por nós mesmos, como filhos e filhas adotados do Rei. O Espírito opera em nós porque fomos justificados. Portanto, dizer, como Spener faz aqui, que “Ninguém será justificado além daqueles que intencionarem a santificação”, é justamente a coisa que Lutero negou até o dia da sua morte. Todo luterano confessional nega isso. Não há menção da Justificação como base ou mesmo uma extensão da nossa santificação. Lutero coloca essas duas categorias, como se diz, tão distantes como o Oriente está longe do Ocidente. Não porque ele não acreditava que a santificação é importante. Mas porque ele sabia, como Spener aqui demonstra, que assim que você mistura essas duas coisas, essencialmente, o que você acaba tendo, é algo que se parece com o catolicismo medieval. Apenas em vez de mérito e penitência e esses tipos de coisas, o que Spener está argumentando é que você deve ser emocionalmente santificado. Se você não está sentindo esses desejos piedosos, então você deve duvidar se você é ou não justificado. Observe novamente, o quão sutil é esse problema. Não basta simplesmente dizer que a justificação tem um efeito. Em vez disso, temos que garantir que entendemos como esse efeito é compreendido.

O novo testamento fala incessantemente sobre isso, fala sobre a santificação, por exemplo, como fruto. Bem, o fruto em si é um produto das raízes e os ramos que são saudáveis e seguros. Lutero, na verdade, está principalmente preocupado com essa interpretação sutil. Não pela justiça das obras, mas pela equação da nossa justificação, com algo que nós fazemos, sentimos, ou experimentamos.

Se você não pode descrever o momento decisivo quando isso aconteceu em sua vida, então, vem essa dúvida crescente sobre se você é ou não um cristão. O Pietismo, em outras palavras, tende a enfatizar que somos quase; isto é uma caricatura, mas é certamente quase verdade, que somos justificados por nossas emoções. Que é apenas outra palavra-código para justificação pela fé e obras.

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Moravians and Radical Religion in Early America by Aaron Spener Fogleman

À medida que o Pietismo se desenvolve, então você verá que existe uma crença radical em um conversonismo. Aqueles que não se converteram, que não tiveram algum momento de crise do filho pródigo, por causa dessa influência pietista, começam a duvidar se realmente vieram a Cristo. Se a vida emocional é a base da nossa justificação, ou se você não teve uma experiência emocional radical. E por uma experiência radical, quero dizer, literalmente, uma rápida e quase sísmica vinda de Cristo sobre nós, que é esmagadoramente emocional. Se você não pode descrever o momento decisivo quando isso aconteceu em sua vida, então, vem essa dúvida crescente sobre se você é ou não um cristão. O Pietismo, em outras palavras, tende a enfatizar que somos quase; isto é uma caricatura, mas é certamente quase verdade, que somos justificados por nossas emoções. Que é apenas outra palavra-código para justificação pela fé e obras.

Terceiro e último. Spener argumenta que o treinamento nos seminários, treinamento teológico, precisa enfatizar menos a Bíblia e a doutrina, todas essas matérias que são tradicionais, e francamente focar na educação do seminário. Porque essas são as coisas que são mais difíceis de entender às vezes. Em vez disso, Spenser argumenta, vamos nos livrar dessas coisas, ou, pelo menos, diminuí-las. E ele disse, vamos nos concentrar apenas na formação espiritual prática, ou pelo menos, massivamente. Então observe novamente, este balançar bastante abrupto do pêndulo em direção à piedade, particularmente no sentido de que é anti-doutrina e anti-confessional, agora não só prejudicou nossa compreensão da justificação somente por Cristo, mas agora diminui a importância tanto da Bíblia quanto da doutrina como algo que vale a pena ser estudado, ou como qualquer parte verdadeiramente significativa do treinamento para o ministério pastoral. Não precisa ser cientista espacial para ver como isso vai afetar as coisas ao longo dos séculos. Você tem seminaristas e professores e administradores de seminários ao longo dos séculos dizendo: Vamos nos livrar desse material bíblico. Como o estudo da Bíblia realmente vai nos ajudar? Ou como estudar a fé que nos foi transmitida e realmente aprender a ter cuidado com nossas palavras, quando descrevemos a nossa teologia confessionalmente? Vamos nos livrar disso, ou vamos deixar de enfatizar isso e nos concentrar no ministério espiritual prático. O problema aqui, não está nos privilégios ou no cuidado ou preocupação com a formação espiritual, ou o ministério prático. É que é usado para evitar qualquer exploração séria da Bíblia ou de nossa confissão. Torna-se uma questão exclusiva: Sim ou Não, em vez de uma posição inclusiva.

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Hermann Francke

No final, Spenser não foi expulso da igreja Luterana por causa da sua compreensão do Pietismo. Mas ele é o pai do Pietismo. Porém, com o tempo eventualmente, ocorre uma separação completa. Em particular com um homem de nome Hermann Francke e outros. E Francke foi o homem que disse: Vamos deixar de ser Luteranos, e vamos mudar para sermos outra coisa. Portanto, a importância do Pietismo, não é apenas uma briga interna entre luteranos, porque eis o que acontece:

Duas Influências

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Emblema dos Morávios com Agnus Dei

E através dos Morávios, oPietismo alcança e influencia dramaticamente a vida e a teologia de Wesley. E é o Wesleyanismo que se torna a trajetória teológica dominante na maior parte das Américas no século 18.

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John Wesley

O Pietismo, uma vez que se liberta e fica de pé por conta própria, separado da igreja Luterana, começa a influenciar fortemente duas das mais importantes denominações e trajetórias teológicas a partir do século 18 em diante. Ou seja, os Morávios, que veremos em uma próxima palestra. E através dos Morávios, oPietismo alcança e influencia dramaticamente a vida e a teologia de Wesley. E é o Wesleyanismo que se torna a trajetória teológica dominante na maior parte das Américas no século 18. E então você tem essa mistura de uma experiência luterana pietista e emocionalismo passional, que começa a exercer uma influência além de si mesmo, que eventualmente se tornará um dos princípios fundamentais da espiritualidade wesleyana moderna, e, por extensão, até o movimento evangélico moderno.


Ryan M. Reeve (PhD Cambridge) é Professor Assistente de Teologia Histórica no Gordon-Conwell Theological Seminary. Twitter: https://twitter.com/RyanMReeves Instagram: https://instagram.com/ryreeves4/

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Escolhendo Bem

Escolhendo Bem

Fazer escolhas de vida nunca é fácil. Você acaba a faculdade ou universidade, e tem que fazer algum tipo de escolha sobre o que acontece a seguir. Ou você está no meio da sua carreira, de frente para uma encruzilhada, e você pensa, você sente, que Deus pode estar lhe chamando para algo novo. Talvez você tenha sido despedido de um cargo que ocupava há anos e está sendo confrontado por uma série de novas perguntas sobre o que fazer a seguir. E as contas do aluguel continuam a chegar, então há um grau de urgência na sua situação.

Claro, essa escolha é o privilégio de poucos, e sempre devemos enxergá-la como tal. Mas a velocidade das mudanças tecnológicas e as rápidas mudanças no ambiente de trabalho às vezes tornam essa escolha assustadora e angustiante. É quase como se não pudéssemos lidar com o número de alternativas: ficar onde estamos, tirar umas férias e voltar ao trabalho, trabalhar em casa ou remotamente, fazer cursos de aperfeiçoamento, mudar de profissão ou a forma como trabalhamos, juntar-se a outros para empreender algo novo, mudar para algo mais “espiritual” ou “significativo”, dar um tempo no trabalho voluntário de tempo integral. As escolhas são vertiginosas.

Mas, na minha experiência, elas ficam significativamente mais fáceis com o conhecimento de que Deus nos chama e está lá para nos guiar. Deus em primeiro lugar. Esse é o lugar para se começar.

A Bíblia deixa claro que Deus nos dá uma escolha — ele trabalha conosco, não apenas através de nós. Na maior parte das vezes, temos a liberdade de buscar os caminhos de Deus e depois fazer escolhas. Nós não operamos independentemente dele, mas tampouco somos marionetes manipulados por uma corda. Nossos chamados pessoais não são ordens, mas conclamações e sugestões. Nós entramos em parceria com Deus, aproveitando as oportunidades que Deus nos apresenta e as paixões que ele nos deu.

Onde quer que você esteja agora (presumindo que você esteja caminhando com o Senhor e que não esteja fazendo nada de imoral ou ilegal) é onde você está destinado a estar. Seu chamado não está em algum lugar indescritível, além do mundo, inacessível. Seu chamado é aqui e agora. Você é chamado para continuar e viver à luz dessa chamada.


Extraído do livro: “Know Your Why: Finding And Fulfilling Your Calling [Conheça o seu porquê: Encontrando e cumprindo o seu chamado] por Ken Costa

Chamado para a Paixão

Chamado para a Paixão

Muitas vezes, quando as pessoas falam sobre chamado, elas tentam retirar  a autonomia humana da equação. Elas imaginam que nossos desejos, nossas preocupações, nossas paixões e talentos são irrelevantes. Mas o fato de que o nosso Pai amoroso nos chamou não deve negar a liberdade que temos de fazer escolhas.

Encontrar nossas paixões — respondendo a pergunta “Que buscais?” — é crucial para encontrar nossos chamados. Raramente essa pergunta é facilmente respondida. Para a maioria, determinar o que realmente queremos é um processo psicológico profundo: uma jornada de descoberta que leva tempo para se fazer e que pode nos levar em diferentes direções em diferentes pontos de nossas vidas.

Assim foi para os discípulos. Eles não sabiam o que queriam — só que estavam buscando algo. Quando Jesus perguntou: “Que buscais?” Eles não sabiam como responder. Em vez disso, eles esquivaram-se com uma pergunta própria: “Onde moras?” (João 1:38)

A inferência da pergunta dos discípulos é clara: não sabemos a resposta para sua pergunta. Não temos certeza do que estamos buscando. Não sabemos para onde estamos indo. Mas sabemos que queremos passar algum tempo com você, ficar com você, para aprender mais sobre você. Porque se você realmente é quem João diz que é, então talvez você possa nos mostrar o que estamos realmente buscando.

A simples resposta de Jesus aos discípulos também reconheceu suas perguntas não ditas. As palavras “Vinde e vede onde estou morando”, significava: “Venham descobrir os planos que tenho para vocês; Os chamados e as paixões que darei a vocês “. E isso é exatamente o que os discípulos fizeram. Eles entraram na casa buscando, mas foram buscados.

Pois Jesus os buscou e chamou. Eles desistiram de suas buscas pela verdade e assumiram novos chamados e novas identidades, não porque tivessem todas as respostas, mas porque encontraram aquele que tinha. Eles não encontraram um novo projeto religioso, nem um novo programa, mas uma pessoa. Eles tornaram-se conhecidos por ele, e esse reconhecimento mudou suas vidas.


Extraído do livro: “Know Your Why: Finding And Fulfilling Your Calling” [Conheça o seu porquê: Encontrando e cumprindo o seu chamado] por Ken Costa

Chamados para Esperar

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Photo by Daniel Monteiro on Unsplash

Em um mundo de rápidas mudanças, todos enfrentamos novas estações em nossas vidas, algumas que escolhemos e outras que são impostas sobre nós: um estágio da vida acaba para que outro comece; Novos desafios de carreira levam a diferentes empregos; Novas oportunidades mudam nossos modos de vida.

Nestes tempos, temos uma tendência a acreditar que nada de bom virá dessa experiência de espera. Mas este é o momento mais valioso de nossas vidas em Cristo: quando ele se aproxima e trabalha conosco para alinhar nossas vontades ao seu propósito. Esta estação nos permite responder ao seu chamado para a próxima fase de nossas vidas. Há uma excitação neste momento se tivermos a atitude certa e se pudermos abraçar em vez de resistir aos desafios da estação.

Chegue mais perto de Deus

Deus usa momentos de espera para nos aproximar dele, de nós mesmos e de nossos entes queridos. Muitas pessoas me disseram que, em tempos de incerteza, eles se aproximaram de Deus, mas também de seus cônjuges e de outros próximos a eles. Na batalha pela nossa atenção, Deus muitas vezes tem que nos deixar passar por um período de adversidade para que possamos sintonizar nossos ouvidos com sua voz e discernir sua direção.

Em um mundo frenético, muitas vezes dividimos Deus em vidas super ativas, tentando forçá-lo a se encaixar em nossas rotinas. Isso nunca funciona. Um período de espera é um momento para reconhecer que temos ficado à deriva em um mundo de expectativas e respostas instantâneas. Este não é o mundo real. Muitas vezes, o caminho de Deus é despertar dentro de nós um chamado, mas depois permitir que reconheçamos que seu maior desejo é aproximar-se de nós.

No livro de Isaías, o rei Ezequias ficou doente e recebeu a palavra do profeta Amós de que estava prestes a morrer. O rei clamou a Deus por salvação, e depois de um curto período de espera, Deus enviou Isaías para informá-lo de que ele agora viveria. Como seria de prever, o rei ficou bastante aliviado! Mas mesmo antes de ser curado, o rei Ezequias começou a cantar uma canção de louvor ao Senhor.

Na escuridão de sua incerteza, Ezequias encontrou-se atraído para perto de Deus, capaz de apreciar novamente a graça e o amor de seu Salvador.


Extraído do livro: “Know Your Why: Finding And Fulfilling Your Calling” [Conheça o seu porquê: Encontrando e cumprindo o seu chamado] por Ken Costa

Tomando a Perspectiva de Deus

Tomando a Perspectiva de Deus

Um dos maiores problemas enfrentados pelo cristianismo hoje é uma recusa em acreditar que Deus possa se importar com nossos futuros individuais, que Deus possa se preocupar com nossas vidas no dia-a-dia ou tenha planos para nós fora de uma chamada ministerial específica. Muitas vezes, ficamos satisfeitos com a idéia de que Ele possa chamar outras pessoas, mas pode existir uma insegurança profunda sobre se Deus pode nos usar. Quando se trata do nosso chamado e do nosso futuro, tememos que Deus possa ter se esquecido de nós.

Podemos facilmente imaginar que políticos, professores, agentes sociais e médicos achem mais fácil ter a certeza de que seu trabalho é uma materialização do seu chamado cristão. Mas e quanto aqueles que não vão curar o câncer, prestar ajuda ou evangelizar de um púlpito? Como eles podem vislumbrar um chamado que é exclusivo deles?

“O mundo é utilitário em seus julgamentos e padrões. Quanto mais óbvio é o bem que fazemos e quanto mais pessoas impactamos positivamente, mais o mundo julgará nossos esforços como merecedores. Mas essa não é a perspectiva de Deus.”

Parte da resposta está em tentar ver o nosso trabalho através dos olhos de Deus, e não através dos olhos do mundo. O mundo é utilitário em seus julgamentos e padrões. Quanto mais óbvio é o bem que fazemos e quanto mais pessoas impactamos positivamente, mais o mundo julgará nossos esforços como merecedores. Mas essa não é a perspectiva de Deus.

No final, mesmo a maior das nossas obras será esquecida pelo mundo. Todos os nossos esforços serão pó e cinzas diante da glória eterna de Deus. Há uma bela simplicidade nesse versículo de Isaías 40: “Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (versículo 8). Quando se trata do mérito de nossos chamados, precisamos tomar uma perspectiva divina e lembrar que os padrões de Deus não são como os do mundo.

Algumas pessoas são chamadas para fazer grandes obras — governar países, organizar esforços de ajuda humanitária, evangelizar milhões. E algumas pessoas são chamadas para realizar pequenas ações de serviço — servir café com um sorriso, varrer as ruas, assar um bolo para os vizinhos. Mas Deus não olha para essas coisas e as vê como inconsequentes. Para ele, elas são belos derramamentos do seu espírito.

Um chamado para servir a Deus no local de trabalho pode ser para recuperar uma empresa falida. Ou talvez seja para ser um amigo leal e fiel para um colega de trabalho que está passando por um momento difícil. Embora o mundo julgue um como mais significativo do que o outro, mas não é a maneira como Deus vê.


Extraído do livro: “Know Your Why: Finding And Fulfilling Your Calling [conheça o seu porquê: Encontrando e cumprindo o seu chamado] por Ken Costa

As Boas Obras São Necessárias para ‘Alcançar o Céu?’

“A certeza da salvação para Calvino, Armínio e ICAR só pode vir através das emoções ou obras externas (frutos), o que significa que o evangelho que eles pregam nunca é um Evangelho suficiente.”

Os debates em torno da natureza da santificação são infindáveis tanto em círculos Luteranos como Reformados. Houve um pouco de controvérsia recentemente, em torno de algumas terminologias específicas utilizadas por John Piper no seu prefácio do livro recente de Thomas Schreiner sobre a justificação. Neste prefácio, Piper escreve:

2014-09-16-100002-39“A resposta cristã surpreendente é: sola fide — por meio da fé somente. Mas não se esqueça de ouvir isso com cuidado e precisão: Ele diz Justificados perante Deus pela fé somente, não alcançar o céu pela fé somente. Há outras condições para se alcançar o céu, mas não para se entrar em um relacionamento correto com Deus. Na verdade, alguém já deve estar num relacionamento correto com Deus pela fé somente, a fim de satisfazer as outras condições.” [1]

Neste texto, Piper faz a distinção entre justificação e alcançar o céu. Piper argumenta que a fé sozinha é necessária para alguém ser inicialmente justificado, mas que existem outras condições necessárias após a justificação para que alguém seja recebido na glória escatológica. Estas condições são, é claro, as boas obras que acompanham a fé verdadeira. Diversos autores Reformados vieram em defesa de Piper. Mark Jones, por exemplo, escreveu uma defesa no Reforma 21 argumentando que a formulação de Piper não difere de forma significativa da tradição histórica Reformada. Ele cita Turretin como tendo dito:

“Esta mesma idéia não é menos explicitamente passada a respeito da glória futura. Pois já que as boas obras têm a relação dos meios para se alcançar um fim (Jo 3:5,16; Mt 5:8); do ‘caminho’ para o alvo (Ef 2:10; Fl 3:14); da ‘semeadura’ à colheita (Gl 6:7-8)… do trabalho à recompensa (Mt 20:1); da ‘competição’ à coroa (2 Tm 2:5; 4:8.), todos veem que existe o mais elevado e uma necessidade indispensável de boas obras para a obtenção da glória. É tão grande que ela não pode ser alcançada sem elas (Hb 12:14; Ap 21:27).” [2]

No cerne desta discussão está a diferenciação que é feita entre a justificação presente e a recepção na glória escatológica. Isso permite que alguns escritores argumentem que a salvação é pela fé somente num certo sentido (justificação), e pela fé e santificação num outro (a entrada no céu). Isto é semelhante as distinções feitas pela Nova Perspectiva sobre Paulo (NPP), bem como alguns escritores dentro da Visão Federal que distinguem entre dois sentidos de justificação: presente e escatológica. Existem duas preocupações principais que eu tenho com relação a este tipo de linguagem. Em primeiro lugar, isto separa a justificação no presente e a vindicação escatológica de uma pessoa. Estes não são dois eventos separados, mas a justificação é a vindicação escatológica de uma pessoa recebida de modo proléptico (antecipatório). Assim, se a justificação é recebida sola fide, então da mesma maneira é qualquer bênção soteriológica escatológica. Sim, é verdade que todos os cristãos que possuem fé também irão realizar boas obras, e sim, é verdade que estas obras irão evidenciar a realidade da fé de uma pessoa no julgamento final. Também é verdade que ninguém é justificado sem também ter começando uma vida de santificação, e que existem recompensas celestes para as boas ações realizadas. No entanto, a necessidade de boas obras, e a inevitabilidade de boas obras não as tornam uma condição para entrar na vida eterna. Em seu zelo para combater o antinomismo, é meu medo que esses escritores estejam comprometendo a natureza integral e gratuita da salvação.

Em segundo lugar, eu me preocupo com essa linguagem pastoralmente. Claro, os teólogos podem fazer distinções mais sutis entre a justificação e “alcançar o céu”. Podemos falar de diferentes tipos de necessidades, chamando boas obras de uma “necessidade consequente” para a salvação, etc. Mas, são essas distinções valiosas para um membro comum da igreja? Se eu pregar e usar a frase “boas obras são necessárias para a salvação,” como é que isto vai ser compreendido por minha congregação? Infelizmente, esta última análise, coloca o cristão no mesmo dilema que a igreja medieval. Sim, eu posso rejeitar a linguagem da meritocracia, e falar sobre a salvação pela graça, mas em última instância não acabamos direcionando as pessoas de volta para suas próprias boas obras para terem a garantia da salvação? Que benefício há para a justificação no passado ser recebida sola fide, mas a salvação futura ser duplamente de fé e obras? Eu entendo que teológica e linguisticamente isto difere do sistema Romano Medieval, mas me pergunto se realmente difere pastoralmente?

Os autores da Fórmula de Concórdia abordaram exatamente esta questão, e ao fazê-lo, fornecem algumas observações extremamente valiosas:

22] “Mas aqui temos de estar bem atentos para que as obras não sejam atraídas e se misturem com o artigo da justificação e salvação. Portanto, as proposições são justamente rejeitadas, que aos crentes boas obras são necessárias para a salvação, de modo que seja impossível ser salvo sem boas obras. Porque são diretamente contrárias à doutrina de particulis exclusivis in articulo iustificationis et salvationis (sobre as partículas exclusivas no artigo da justificação e salvação), isto é, elas entram em conflito com as palavras de São Paulo com as quais ele excluiu totalmente as nossas obras e méritos do artigo da justificação e salvação, e atribuiu tudo à graça de Deus e mérito de Cristo somente, como explicado no artigo anterior. 23] Novamente, elas [essas proposições relativas à necessidade de boas obras para a salvação] tiram das consciências aflitas e conturbadas o conforto do Evangelho, dão ocasião a dúvida, são, em muitos aspectos perigosas, fortalecem a presunção em sua própria justiça e confiança em suas próprias obras; além disso, elas são aceitas pelos Papistas, e em seu interesse invocadas contra a doutrina pura da salvação somente pela fé. 24] Além disso, elas são contrárias ao modelo das sãs palavras, como está escrito que a bem-aventurança é apenas do homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras, Rm 4:6). Da mesma forma, no Sexto Artigo da Confissão de Augsburgo, está escrito que somos salvos sem as obras, somente pela fé.” [3]

Eu sei que John Piper, Mark Jones, Kevin DeYoung, e outras pessoas que têm utilizado esta terminologia não estão intencionalmente a comprometer a doutrina da justificação pela fé, e eles certamente iriam rejeitar a linguagem de Roma a este respeito. Temo, porém, que esta teologia seja perigosa pastoralmente, especialmente para as consciências sobrecarregadas que precisam ser apontadas para as promessas incondicionais de Deus, tal como constam em seus meios da graça.

[1]  http://www.thegospelcoalition.org/blogs/justintaylor/2015/09/15/john-pipers-foreword-to-tom-schreiners-new-book-on-justification-by-faith-alone/
[2] – Leia mais em: http://www.reformation21.org/blog/2015/09/in-defense-of-piper.php#sthash.h8RBITcZ.dpuf
[3]  http://bookofconcord.org/sd-goodworks.php


Sobre Jordan Cooper
Jordan Cooper é o pastor da Faith Lutheran Church em Watseka, Illinois. Ele é o anfitrião do podcast Just and Sinner, e autor dos livros “Christification: A Lutheran Approach to Theosis” [Cristificação: Uma Abordagem Luterana para a Theosis], e “The Righteousness of One: An Evaluation of Early Patristic Soteriology in Light of the New Perspective on Paul” [A Justiça de Um: Uma Avaliação da Soteriologia Patrística Antiga à Luz da Nova Perspectiva sobre Paulo]. Ele dirige a Just and Sinner Publications com sua esposa Lisa, e tem dois filhos: Jacen e Ben.


Traduzido por Claudio L. Chagas – Are Good Works Necessary to “Attain Heaven?” – Jordan Cooper | Just and Sinner

Tomar decisões: princípios para boas escolhas

LIVRE ARBÍTRIO E A ÉTICA DA DECISÃO

“O homem pode ser livre para tomar inúmeras decisões importantes, mas há uma escolha que ele não pode fazer. O homem não pode escolher não escolher.” (Forell IV)

A VIDA DO HOMEM DEBAIXO DA LEI

“Permita-me ilustrar. É noite. Um homem está em um barco que está sendo levado lentamente pela corrente em direção a uma cascata. Esse homem, que está bem acordado em seu barco, não pode escapar de fazer uma opção. É verdade que todas as suas opções podem no final ser sem sentido. Ele pode começar a remar furiosamente e ainda assim ser levado pela corrente por sobre a borda para a destruição. Pode não fazer absolutamente nada e a corrente pode prender o barco contra uma rocha, conservando-o em segurança até o amanhecer. Mas esse homem não sabe qual é a decisão adequada, e percebe que não fazer nada também é uma decisão. A corrente está levando seu barco, quer ele goste, quer não. Ele não pode pedir tempo para ponderar as alternativas possíveis. Lá está ele sentado no barco, e tudo o que faz ou deixa de fazer o compromete. Não tomar uma decisão também é uma decisão. Ele não pode escapar de sua liberdade; está condenado a ser livre.”

Forell, George W. Ética Da Decisão: Introdução À Ética Cristã. 8th ed. São Leopoldo, Brazil: Editora Sinodal, 1973. Print.

Citations, Quotes & Annotations
(Forell 19)