Obras Sem Fé Não São Nada

lutherDizemos, portanto, com Paulo, em Rm 1.17: “A justiça de Deus é nele revelada, de fé em fé, como está escrito: O justo vivera da fé.” Porventura deveria o apóstolo ter sido instruído pelos eckianos para que acrescentasse esta glossa singular: “mas não só da fé”? Da mesma forma Rm 10.10: “Com o coração se crê para justiça.” Observa que a justiça é atribuída somente a fé, a tal ponto que ele menciona apenas o coração, sem qualquer referencia aos outros membros que poderiam atuar “. A confissão da boca, diz ele, resulta em salvação, mas onde a pessoa já é justificada pela fé.

O que quero dizer, para preterir essas tolices insonsas dos sofistas, é isto: não ha obras que justificam ou fazem justo, senão, somente a fé. No entanto, o justificado faz obras. O sentido da Escritura é este: a justificação é anterior as obras, e as obras são praticadas pelos justificados. Pois não somos justificados praticando obras justas, como diz erroneamente Aristóteles, mas, justificados, praticamos obras justas, assim como ninguém se torna bispo realizando as obras de um bispo, mas, depois de ter se tornado bispo, realiza as obras de um bispo. De igual modo, não são as obras da fé que fazem a fé, mas a fé faz as obras da fé. Não são as obras da graça que fazem a graça, mas a graça faz as obras da graça. E por isso que Deus olha primeiro para Abel (no qual se compraz) e só depois para suas obras. É isto que o apóstolo quer: somos justificados somente pela fé, não pelas obras, ainda que, como pessoas já justificadas, não omitamos as obras. E por isso ousa continuar dizendo que não há lei para o justo, pois quem já é justo pela fé não necessita de lei, mas faz obras espontaneamente. Esse modo de falar e entender nunca será entendido por tais sofistas afogados em suas obras. Pois o que ale diz em R. 2.13: “Não os que ouvem a lei, mas os que a praticam serão justificados”, diz porque são considerados justos, e não porque sejam justificados por obras. Praticar a lei é cumpri-la, ou seja, crer em Cristo.

Eles, porém, citam a Epistola do apostolo Tiago: “A fé sem obras é morta.” [2.17.] Em primeiro lugar, o estilo dessa epistola está muito abaixo da majestade apostólica e de nenhum modo pode ser comparado ao de Paulo. Depois, Paulo fala da fé viva, pois fé morta não é fé, é uma ilusão. Mas eis que os teólogos se agarram a esse um versículo com unhas e dentes, e absolutamente nada lhes importa que o restante da Escritura recomenda a fé sem as obras. Porém, este é seu costume: com um fragmento arrancado do contexto arremetem contra toda a Escritura.

Portanto, os que se gabam com o titulo de teólogos deveriam aprender, antes de mais nada, o que são fé e obras de acordo com as Escrituras, e não condenar imediatamente tudo em que estas se chocam com as opiniões inveteradas deles. Se o povo se choca com isso, que o atribuam a seus infelizes estudos, pois não ensinaram o povo a compreender a palavra de Deus e sua maneira de falar, necessária para a salvação. Eles próprios são responsáveis por tais escândalos. É com muito perigo que se pregam as obras como anteriores fé. A fé sem obras, porem, é pregada sem perigo algum. Isso porque o povo está disposto e propenso a confiar em obras, e as obras preponderam com facilidade sobre a fé. Onde, todavia, se ensina corretamente a fé pura, as obras vêm espontaneamente e sem perigo, desde que tenham aprendido que depende mais, que depende ludo da fé, que fará obras.

E um horror observar o quanto são ignorantes inclusive os teólogos — quanto mais o povo — no conhecimento da fé que professam. A Igreja está tão cheia de jactância das obras externas, que Cristo parece ter dito a respeito de nossos tempos: “Quando vier o Filho do homem, achas que encontrara fé sobre a terra?” [Lc 18.8.] Para ser breve: visto que fé é o correto e bom conceito de Deus, e que qualquer conceito por si só já leva a pessoa às obras, não ha dúvida de que quem tem a fé pratica todas as obras. Se já a imagem de tuna mulher e o amor a ela não nos deixam sossegados, mas, sem lei e sem mestre, fazem mais do que se exige, como não seria a fé muito mais capaz de realizar a mesma coisa? 0 mundo é governado somente por conceitos, e o cristão não poderia ser governado somente pela fé? Afinal, quem ensina os teólogos sofistas a fazer, sofrer, pensar e evitar coisas tantas e tão grandes por amor de seus conceitos? Não seria openas o afeto por seus conceitos? Em outra ocasião direi mais sobre isso.

E extremamente ímpio o terceiro erro, em que ele afirma que a fé não é suprimida por nenhum crime, por ser a fé a justiça, e o crime o contrario — injustiça. Sei, porém, que ele me objetara com a invenção da fé infusa e da fé adquirida; mas por acaso é digno de um bom homem, quanto mais de um teólogo, saber que a tese de alguém é verdadeira e, não obstante, procurar nela outro sentido, para garrular que ela é falsa, e assim caluniar a verdade por causa de uma expressão ou de um equivoco num vocábulo? Que eximia teologia será essa se, quando alguém diz: “O cão é um animal que ladra”, tu contestares dizendo: “Não é verdade. O cão é uma constelação celeste”, sabendo perfeitamente que o outro usou o vocábulo “cão” em sentido diferente do que tu!

Quem não odeia essa duplicidade, ou melhor, multiplicidade sofista e odiosa num Proteu, quarto mais num teólogo? Visto, portal, que Eck diz no titulo que debate “contra uma doutrina nova”, concluo, em favor da simplicidade teológica, que ele não está falando de outra fé do que falei eu; do contrário, não estaria falando contra minha doutrina nova, e o titulo seria mentiroso. Por isso afirmo que essa sua contra-tese é a mais herética e ímpia que jamais vi, pois nega a fé como a única que justifica, contra o apostolo Paulo e o Evangelho de Cristo, afirmando ainda que a fé não é suprimida por nenhum crime. Além disso, defende o livre arbítrio como senhor dos atos, contra as Escrituras.
(Martinho Lutero: Obras Selecionadas 1: 372–374)


Tiago 2:20-23 “Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta? 21 Porventura Abraão, o nosso pai, não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou (foi ativa) com as suas obras e que, pelas obras, a fé foi aperfeiçoada (completada), 23 e cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.

A fé é passiva, pois recebe a justiça e a salvação que Deus dá livremente por causa do sofrimento e da morte de Cristo. Mas a fé é ativa, quando esta serve e ama o próximo.
Onde o artigo de Justificação é entendido erroneamente, isso se reflete no caráter do culto. Se sou justificado parcialmente pela minha fé que é ativa no amor, eu devo fazer algo no culto para mostrar a Deus quanto eu o amo e quanto ele significa para mim. É contra a nossa natureza sermos ajudados. Se você não acredita em mim, pense em como um homem velho se irrita quando seus filhos tentam ajudá-lo (ou uma criança pequena que está crescendo e ficando independência). Por natureza, não gostamos que as coisas sejam feitas para nós. Desejamos a independência e auto-confiança. Mas tais coisas devem ser deixadas na porta da Igreja que ensina corretamente o artigo principal do Evangelho: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; […] para que ninguém se glorie.”


Martinho Lutero: Obras selecionadas. 2nd ed. Vol. 1. Sao Leopoldo: Sinodal, 1993. Print. 12 vols.

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