As Boas Obras São Necessárias para ‘Alcançar o Céu?’

“A certeza da salvação para Calvino, Armínio e ICAR só pode vir através das emoções ou obras externas (frutos), o que significa que o evangelho que eles pregam nunca é um Evangelho suficiente.”

Os debates em torno da natureza da santificação são infindáveis tanto em círculos Luteranos como Reformados. Houve um pouco de controvérsia recentemente, em torno de algumas terminologias específicas utilizadas por John Piper no seu prefácio do livro recente de Thomas Schreiner sobre a justificação. Neste prefácio, Piper escreve:

2014-09-16-100002-39“A resposta cristã surpreendente é: sola fide — por meio da fé somente. Mas não se esqueça de ouvir isso com cuidado e precisão: Ele diz Justificados perante Deus pela fé somente, não alcançar o céu pela fé somente. Há outras condições para se alcançar o céu, mas não para se entrar em um relacionamento correto com Deus. Na verdade, alguém já deve estar num relacionamento correto com Deus pela fé somente, a fim de satisfazer as outras condições.” [1]

Neste texto, Piper faz a distinção entre justificação e alcançar o céu. Piper argumenta que a fé sozinha é necessária para alguém ser inicialmente justificado, mas que existem outras condições necessárias após a justificação para que alguém seja recebido na glória escatológica. Estas condições são, é claro, as boas obras que acompanham a fé verdadeira. Diversos autores Reformados vieram em defesa de Piper. Mark Jones, por exemplo, escreveu uma defesa no Reforma 21 argumentando que a formulação de Piper não difere de forma significativa da tradição histórica Reformada. Ele cita Turretin como tendo dito:

“Esta mesma idéia não é menos explicitamente passada a respeito da glória futura. Pois já que as boas obras têm a relação dos meios para se alcançar um fim (Jo 3:5,16; Mt 5:8); do ‘caminho’ para o alvo (Ef 2:10; Fl 3:14); da ‘semeadura’ à colheita (Gl 6:7-8)… do trabalho à recompensa (Mt 20:1); da ‘competição’ à coroa (2 Tm 2:5; 4:8.), todos veem que existe o mais elevado e uma necessidade indispensável de boas obras para a obtenção da glória. É tão grande que ela não pode ser alcançada sem elas (Hb 12:14; Ap 21:27).” [2]

No cerne desta discussão está a diferenciação que é feita entre a justificação presente e a recepção na glória escatológica. Isso permite que alguns escritores argumentem que a salvação é pela fé somente num certo sentido (justificação), e pela fé e santificação num outro (a entrada no céu). Isto é semelhante as distinções feitas pela Nova Perspectiva sobre Paulo (NPP), bem como alguns escritores dentro da Visão Federal que distinguem entre dois sentidos de justificação: presente e escatológica. Existem duas preocupações principais que eu tenho com relação a este tipo de linguagem. Em primeiro lugar, isto separa a justificação no presente e a vindicação escatológica de uma pessoa. Estes não são dois eventos separados, mas a justificação é a vindicação escatológica de uma pessoa recebida de modo proléptico (antecipatório). Assim, se a justificação é recebida sola fide, então da mesma maneira é qualquer bênção soteriológica escatológica. Sim, é verdade que todos os cristãos que possuem fé também irão realizar boas obras, e sim, é verdade que estas obras irão evidenciar a realidade da fé de uma pessoa no julgamento final. Também é verdade que ninguém é justificado sem também ter começando uma vida de santificação, e que existem recompensas celestes para as boas ações realizadas. No entanto, a necessidade de boas obras, e a inevitabilidade de boas obras não as tornam uma condição para entrar na vida eterna. Em seu zelo para combater o antinomismo, é meu medo que esses escritores estejam comprometendo a natureza integral e gratuita da salvação.

Em segundo lugar, eu me preocupo com essa linguagem pastoralmente. Claro, os teólogos podem fazer distinções mais sutis entre a justificação e “alcançar o céu”. Podemos falar de diferentes tipos de necessidades, chamando boas obras de uma “necessidade consequente” para a salvação, etc. Mas, são essas distinções valiosas para um membro comum da igreja? Se eu pregar e usar a frase “boas obras são necessárias para a salvação,” como é que isto vai ser compreendido por minha congregação? Infelizmente, esta última análise, coloca o cristão no mesmo dilema que a igreja medieval. Sim, eu posso rejeitar a linguagem da meritocracia, e falar sobre a salvação pela graça, mas em última instância não acabamos direcionando as pessoas de volta para suas próprias boas obras para terem a garantia da salvação? Que benefício há para a justificação no passado ser recebida sola fide, mas a salvação futura ser duplamente de fé e obras? Eu entendo que teológica e linguisticamente isto difere do sistema Romano Medieval, mas me pergunto se realmente difere pastoralmente?

Os autores da Fórmula de Concórdia abordaram exatamente esta questão, e ao fazê-lo, fornecem algumas observações extremamente valiosas:

22] “Mas aqui temos de estar bem atentos para que as obras não sejam atraídas e se misturem com o artigo da justificação e salvação. Portanto, as proposições são justamente rejeitadas, que aos crentes boas obras são necessárias para a salvação, de modo que seja impossível ser salvo sem boas obras. Porque são diretamente contrárias à doutrina de particulis exclusivis in articulo iustificationis et salvationis (sobre as partículas exclusivas no artigo da justificação e salvação), isto é, elas entram em conflito com as palavras de São Paulo com as quais ele excluiu totalmente as nossas obras e méritos do artigo da justificação e salvação, e atribuiu tudo à graça de Deus e mérito de Cristo somente, como explicado no artigo anterior. 23] Novamente, elas [essas proposições relativas à necessidade de boas obras para a salvação] tiram das consciências aflitas e conturbadas o conforto do Evangelho, dão ocasião a dúvida, são, em muitos aspectos perigosas, fortalecem a presunção em sua própria justiça e confiança em suas próprias obras; além disso, elas são aceitas pelos Papistas, e em seu interesse invocadas contra a doutrina pura da salvação somente pela fé. 24] Além disso, elas são contrárias ao modelo das sãs palavras, como está escrito que a bem-aventurança é apenas do homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras, Rm 4:6). Da mesma forma, no Sexto Artigo da Confissão de Augsburgo, está escrito que somos salvos sem as obras, somente pela fé.” [3]

Eu sei que John Piper, Mark Jones, Kevin DeYoung, e outras pessoas que têm utilizado esta terminologia não estão intencionalmente a comprometer a doutrina da justificação pela fé, e eles certamente iriam rejeitar a linguagem de Roma a este respeito. Temo, porém, que esta teologia seja perigosa pastoralmente, especialmente para as consciências sobrecarregadas que precisam ser apontadas para as promessas incondicionais de Deus, tal como constam em seus meios da graça.

[1]  http://www.thegospelcoalition.org/blogs/justintaylor/2015/09/15/john-pipers-foreword-to-tom-schreiners-new-book-on-justification-by-faith-alone/
[2] – Leia mais em: http://www.reformation21.org/blog/2015/09/in-defense-of-piper.php#sthash.h8RBITcZ.dpuf
[3]  http://bookofconcord.org/sd-goodworks.php


Sobre Jordan Cooper
Jordan Cooper é o pastor da Faith Lutheran Church em Watseka, Illinois. Ele é o anfitrião do podcast Just and Sinner, e autor dos livros “Christification: A Lutheran Approach to Theosis” [Cristificação: Uma Abordagem Luterana para a Theosis], e “The Righteousness of One: An Evaluation of Early Patristic Soteriology in Light of the New Perspective on Paul” [A Justiça de Um: Uma Avaliação da Soteriologia Patrística Antiga à Luz da Nova Perspectiva sobre Paulo]. Ele dirige a Just and Sinner Publications com sua esposa Lisa, e tem dois filhos: Jacen e Ben.


Traduzido por Claudio L. Chagas – Are Good Works Necessary to “Attain Heaven?” – Jordan Cooper | Just and Sinner

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Um comentário sobre “As Boas Obras São Necessárias para ‘Alcançar o Céu?’

  1. Republicou isso em Boas Novas para Cristãos Ansiosose comentado:

    John Piper, bem como todos esses neo-calvinistas, historicamente chamados nos Estados Unidos de “The New Divinity Men (homens da nova divindade), os quais incluem pessoas como Jonathan Edwards e George Whitfield, cometem um erro teológico terrível começando com soberania e/ou eleição. Estas com certeza são doutrinas verdadeiras, mas não é o lugar por onde se deve começar. Nós sempre começamos com o que podemos saber claramente sobre Deus e isto é Seu Filho: crucificado, sepultado, ressurreto e ascendido aos céus por nós. Doutrinariamente falando esta categoria se chama soteriologia ou a obra de Cristo.

    Quando começamos com a soteriologia tudo é sempre colocado em Cristo e no que ele fez por nós e assim, portanto, posso saber que a minha eleição é certa, porque Cristo, o eleito, morreu por mim e me transferiu do Reino das Trevas para o glorioso Reino da Luz (Col. 1). Quando começamos com a soberania e/ou eleição o problema se transforma em: como eu sei que sou eleito? Isto começa a abrir a porta para o velho Adão fazer seu caminho de volta para a conversa e dizer, bem é o que eu estou fazendo. É assim que você pode dizer que Jesus morreu por mim por causa do que eu estou fazendo. Olhe para todos os frutos na minha vida!

    Você começa a perceber que muitos destes neo-calvinistas, em parte por causa das suas raízes Revivalistas Americanas, são muito semelhantes a muitos Pentecostais.

    – Jacob Smith

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