Dois Reinos e Duas Espécies de Justiça

Duas Espécies de Justiça é um paradígma Luterano (assim como a Doutrina dos Dois Reinos de Deus). Ela tenta definir a identidade do homem em relação a Deus e ao resto da criação. As duas espécies de Justiça é explicitamente mencionado no sermão de Lutero de 1518 intitulado As Duas Espécies de Justiça, no Comentário de Lutero sobre Gálatas (1535), em seu livro Escravidão do Arbítrio , em Melanchthon, Apologia da Confissão de Augsburgo, e no terceiro artigo do Livro de Concórdia. É também o pressuposto implícito que rege o pensamento de Lutero em A Liberdade de um Cristão, bem como outras obras.

Em teologia “ser justo é ser humano como Deus imaginou na criação, e novamente na redenção.”1 Luteranos acreditam que existem “duas dimensões para ser uma criatura humana”, ou duas relações que definem a natureza humana.2 A primeira dimensão define a relação do homem com Deus e a segunda define a relação do homem com seus semelhantes humanos e o resto da criação de Deus. “Na primeira recebemos justiça perante a Deus por meio da fé por causa de Cristo. Na segunda, podemos alcançar a justiça aos olhos do mundo pelas obras, quando realizamos nossas responsabilidades dadas por Deus. “3

Justiça Coram Deo

O primeiro tipo de justiça é justiça ‘coram deo’ (justiça aos olhos de Deus). Os reformadores também a chamaram de justiça passiva, a justiça da fé, a justiça do Evangelho, justiça alheia, e justiça cristã. Dr. Robert Kolb muitas vezes a chamou de justiça da identidade, porque ela restaura a identidade do homem como um filho de Deus.3

Esta justiça “é uma justiça que recebemos de Deus.”3 Uma pessoa é justa “coram deo”, ou seja, ela está num relacionamento correto com Deus, quando ela simplesmente recebe a obediência imputada de Cristo e o perdão dos pecados por meio da fé. Esta justiça é passiva e vem separada da lei. O ser humano não é justo aos olhos de Deus por causa de sua escolha ou compromisso, suas boas obras ou a sua piedade, suas emoções ou intelecto. Em vez disso, ele é considerado justo, porque o Pai o escolheu desde a fundação do mundo (Ef. 1:3-14) e declara-o justo por causa da ‘morte expiatória de Jesus e ressurreição justificandora (Rom.3:21-28, 4:18-25). Assim, Lutero descreve a justiça de Abraão de fé, dizendo: “O outro tipo de justiça é a justiça da fé, que não depende de quaisquer obras, mas da aprovação favorável de Deus e de seu ‘acerto de contas’ com base na graça.”4 Justiça cristã é dada livremente pelo Espírito através dos meios de graça (ou seja, o batismo, a proclamação do perdão por causa de Cristo, a Ceia do Senhor).

Em seu sermão As Duas Espécies de Justiça (1518), Lutero compara essa justiça alheia ao casamento. Quando um homem e uma mulher se casam, eles compartilham tudo em comum. Através da fé o homem está casado com Cristo. “Portanto, através da fé em Cristo, a justiça de Cristo torna-se a nossa justiça e tudo o que ele tem se torna nosso; em especial, ele mesmo torna-se nosso.”5

Justiça das Obras

O relacionamento do homem com Deus sempre foi definido pelas promessas de Deus e a fé. Mesmo antes da queda no pecado, Adão e Eva eram justos aos olhos de Deus, não por causa de sua obediência, mas porque Deus declarou-lhes como bons e eles acreditaram. A fé sempre definiu a justiça ‘coram deo’. Assim, a justiça perante a Deus não pode depender de realização humana ou mérito. Tal idéia era uma impossibilidade absoluta para Lutero.

Lei e o Evangelho

O importante e popular paradigma Luterano da Lei e do Evangelho se encaixa dentro desta primeira dimensão. A Lei só pode acusar e condenar os pecadores. Qualquer tentativa de justificar-se perante a Deus com realizações humanas é uma afronta a Deus. A Lei condena tais tentativas, revela a culpa do homem, e esmaga o seu orgulho. O Evangelho traz perdão gratuito e levanta o pecador para uma nova vida. Nesta dimensão o Evangelho tem a palavra final.

As implicações para o Ministério Pastoral

Quando um pastor ensina seu povo de que o homem é feito justo aos olhos de Deus por meio da fé, ele dá toda a glória ao Senhor por salvar a humanidade. Os reformadores luteranos sabiam que qualquer conversa de justificação pelas obras levaria ao orgulho. Além disso, Lutero e seus colegas acreditavam que pregar justiça passiva dá total conforto. Ela deixa o pecador plenamente confiante de que Deus é seu Pai amoroso e que Jesus é seu Senhor misericordioso, apesar de seu pecado.

Justiça Coram Mundo

O segundo tipo de justiça é justiça “coram mundo” (justiça aos olhos do mundo). Os Reformadores também a chamam de justiça ativa, justiça civil, justiça apropriada, justiça da Lei, e justiça da razão ou da filosofia. Dr. Robert Kolb por muitas vezes chamou esse tipo de justiça, a justiça de caráter, porque ela trata das atitudes e comportamentos de uma pessoa.6

Uma pessoa é justa “coram mundo” quando ela está num relacionamento correto com o resto da criação e isso é feito através de ações do homem. Assim, um pai justo é um pai que cuida de seu filho, um estudante justo é um aluno que estuda muito e respeita seus professores, um cidadão íntegro respeita o governo e paga seus impostos, etc.

Essa justiça é ativa, isto é, “a justiça das obras é uma justiça que podemos alcançar com a capacidade humana.”3 Assim, esta justiça é informada pela Lei (ou seja, a boa vontade de Deus). Ao contrário da primeira dimensão, onde a lei só acusa, na segunda dimensão a lei atua como um tutor. A lei mostra ao homem como Deus criou o mundo para funcionar de certa maneira e adverte que muitas vezes há conseqüências temporais do pecado. Em última instância, “o propósito de uma justiça das obras é o bem-estar deste mundo”, e não a relação do homem com Deus.3

A justiça da lei é definida pela vocação de uma pessoa. Deus não espera os mesmos tipos de obras de todas as pessoas. Além disso, essa justiça se estende a toda a criação. Os seres humanos têm responsabilidades para com a terra inteira e não apenas seus vizinhos humanos.

A imperfeição da Justiça Civil

O homem é capaz de fazer grandes coisas para o seu próximo através de sua razão e força. No entanto, essas boas obras são imperfeitas, manchadas por desejos pecaminosos e motivações impuras. Assim, Lutero constantemente estressa como a justiça ativa não pode merecer a salvação: “Note também aqui a distinção que Paulo faz referindo-se a uma justiça dupla de Abraão. Primeiro, existe a justiça das obras, ou justiça moral e civil; mas ele nega que Abraão foi justificado perante a Deus por meio desta justiça, mesmo que ele seja considerado justo aos olhos dos homens por causa disso. Com esta justiça, ele tem de fato algo para se vangloriar perante aos homens, mas como o resto ele fica aquém da glória de Deus.”7

A importância das Boas Obras

Enquanto os compromissos e as ações do homem não podem ganhar o favor e a salvação eterna de Deus, eles agradam a Deus, no sentido de que Deus se preocupa com o bem-estar temporal do mundo e ele tem o prazer de trabalhar através das obras do homem para cuidar de suas criaturas.

Além disso, esta segunda dimensão da existência humana permite um uso positivo da lei (ou seja, o Terceiro Uso da Lei) e para o estudo da Ética. Perante a Deus a Lei só sempre acusa por causa do pecado do homem, mas perante o mundo a Lei é um tutor útil que instrui os homens que são ignorantes, enganados pela carne ou pela cultura, ou que estão presos em um dilema moral.

O paradigma das duas espécies de justiça não apenas impede justiça pelas obras e sinergismo, mas também impede a licenciosidade e antinomianismo. Através deste paradigma, os luteranos são capazes de confessar tanto Monergismo Divino (ou seja, Deus é o único responsável pela salvação) e a responsabilidade humana. Em outras palavras, a salvação somente pela graça, através da fé somente não tira as responsabilidades do homem no mundo.

Um Terceiro Tipo de Justiça?

Os reformadores luteranos falavam de justiça ativa de duas maneiras.

Em primeiro lugar, eles sempre falavam de justiça ativa como algo que crentes e não crentes têm em comum. Não só os cristãos, mas também muçulmanos, judeus, budistas e ateus são capazes de ser esposos fiéis, pais amorosos, e funcionários que trabalham duro. Cristãos e não-cristãos desempenham muitas das mesmas obras civis externas. Eles geralmente compartilham um entendimento comum de Ética. Assim, Melanchthon pode louvar a obra de Aristóteles Ética a Nicômaco como sendo o melhor trabalho sobre a justiça civil já escrito.8

No entanto, os Reformadores também falavam de justiça ativa, em referência à nova obediência dos cristãos somente. Assim, o Livro de Concórdia afirma: “É correto dizer que nesta vida os crentes que se tornaram justos pela fé em Cristo tem em primeiro lugar a justiça da fé que é concedida a eles e, em seguida, a justiça da nova obediência ou boas obras que são iniciadas neles. Mas essas duas espécies de justiça não se atrevem a se misturar uma com a outra. “9 Além disso, Lutero define justiça ativa em seu sermão de 1518 como o “produto da justiça da primeira espécie, na verdade, como seu fruto e conseqüência.”10

Devido a isso, alguns teólogos luteranos (como Dr. Joel Biermann)11 têm recomendado falar de um terceiro tipo de justiça—a justiça ativa de um cristão resultante do trabalho do Espírito.

Há valor em falar sobre duas espécies de justiça e três espécies. Por um lado, a justiça ativa de um cristão e de um incrédulo é a mesma, tanto para fazer as mesmas obras externas nas mesmas vocações. Por exemplo, uma pessoa não pode dizer a diferença entre um empregado cristão fiel e um empregado não-crente fiel apenas pela aparência exterior. De certa forma, a justiça ativa de um cristão é diferente só porque o pecado que a contamina foi perdoado. Em outras palavras, a justiça “coram deo” santifica a justiça “coram mundo”.

Por outro lado, a Bíblia faz uma distinção entre a justiça ativa dos crentes e a justiça ativa dos incrédulos. No final, apenas as boas obras dos cristãos são agradáveis a Deus. No juízo final, Jesus irá louvar apenas as obras das ovelhas e condenar apenas as obras dos bodes (Mat. 25:31-46). Além disso, o Espírito opera no cristão após a conversão. O Espírito Santo dá aos cristãos desejos virtuosos, santos (comumente chamados de frutos do Espírito) e crucifica sua carne pecaminosa. O cristão guiado pelo Espírito ansiosamente busca a Lei de Deus, que não mais pode acusar a sua consciência, de modo que possa guiá-lo, enquanto o não-crente sempre busca orientação de leis e filosofias feitas pelo homem que estão cheias de erros. Em outras palavras, a justiça cristã irá levar a uma nova obediência.

Ambas as formas de descrever justiça ativa são bíblicas e foram usadas pelos reformadores luteranos. Portanto, é aceitável falar de qualquer uma das duas espécies de justiça ou três, e também é aceitável definir justiça ativa como as obras realizadas tanto por crentes e não crentes ou como a nova obediência que ocorre após a conversão.

Outras referências sobre as Duas Espécies de Justiça

O teólogo luterano Francis Pieper menciona brevemente o paradigma dos Duas Espécies de Justiça em sua Dogmática Cristã:

“Na terminologia de Lutero existem “duas espécies” de perdão dos pecados, ou de justificação, a “interna” e a “externa’. A justificação interna se dá através da graciosa promessa do Evangelho e pela fé que se apodera desta promessa. A justificação externa ocorre através das boas obras dos cristãos, que, como conseqüência e fruto da justificação interna, prova aos homens que a justificação interna está lá. “12

Teólogos de fora da Igreja Luterana também têm notado e utilizado esse paradigma. Por exemplo, Jonathan Edwards menciona o paradigma dos Duas Espécies de Justiça num famoso sermão sobre a justificação:

“Há uma justiça dupla que os santos possúem: uma justiça imputada, a única que vale para a justificação; e uma justiça inerente, isto é, aquela santidade e graça que está nos corações e nas vidas dos santos. Esta é a justiça de Cristo, bem como a justiça imputada: justiça imputada é a justiça de Cristo aceita por eles, santidade inerente é a justiça de Cristo comunicada a eles. Eles derivam sua santidade de Cristo como a fonte dela. Ele a dá pelo seu Espírito, de modo que, é a santidade de Cristo comunicada, é a luz do sol refletida. Agora, Deus tem prazer nos santos por estas duas coisas: pela justiça de Cristo imputada e pela santidade de Cristo comunicada, porém “somente esta primeita tem qualquer valor para a justificação.”13

Referências

1. Charles Arand, “Two Kinds of Righteousness as a Framework for Law and Gospel in the Apology,” Lutheran Quarterly XV (2001): 420.
2.  Ibid, 420-421.
3. a b c d e Ibid, 421.
4.  Martin Luther, “On the Bondage of the Will,” Luther’s Works: Career of the Reformer III, Vol. 33 (St. Louis, MO: concordia Publishing House, 1963), 270-271.
5. Martin Luther, “Two Kinds of Righteousness,” Martin Luther: Selections from his Writings, Ed. John Dillenberger (New York: Anchor Books,1961), 87.
6. Arand, 421.
7. Luther, On the Bondage of the Will, 270-271.
8. Apology IV:15 (Kolb/Wengert, 2000).
9. Solid Declaration of the Formula of Concord III:32 (Kolb/Wengert, 2000).
10. Martin Luther, “Two Kinds of Righteousness,” 89.
11. Assista o vídeo “Two Kinds of Righteousness 2,” parte da série de Doutrina Cristã do Seminary Concordia I-Tunes page, compartilhado com a permissão do Dr. Biermann.
12. Francis Pieper, Christian Dogmatics, Vol. 2 (St. Louis, MO: Concordia Publishing House,1951), 543.
13. Jonathan Edwards, Sermons and Discourses 1723-1729, Vol. 14, Ed. Kenneth P. Minkema (Yale University Press, 1997), 340-341.

Translation of: Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/The_two_kinds_of_righteousness

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